Texto por Lara Mather

O IndieLisboa está de volta e, de 30 de abril a 10 de maio, a cidade transforma-se no epicentro do cinema independente. Com uma seleção robusta de 241 filmes, esta edição cruza novas linguagens com uma forte presença do cinema português, destacando-se uma homenagem ao realizador João Canijo, falecido este ano e já recordado pela Parq.

Rizoma: Memória e Identidade

Na secção Rizoma, o festival celebra o legado de Canijo com a exibição de “Noite Escura – Versão do Realizador”. O filme, que integrou a competição da primeira edição do festival, regressa agora com mais 17 minutos em relação à versão apresentada em Cannes. Aqui, reencontramos o retrato cru de uma família disfuncional que gere um bar de alterne à beira da estrada. A sessão decorre a 9 de maio, na Culturgest, com entrada livre.

Noite Escura de João Canijo

Ainda nesta secção, a longa-metragem “Mulheres de Abril”, de Raquel Freire, assinala o 52.º aniversário da Revolução através de testemunhos de mulheres de Portugal e das ex-colónias, abordando colonialismo, desigualdades sociais e conquista.

As escolhas da competição

A Competição Nacional apresenta-se este ano particularmente “apetecível”. Entre os 29 filmes em concurso, destacam-se: “18 Buracos para o Paraíso”, de João Nuno Pinto, que acompanha uma propriedade portuguesa assolada pela seca, com um elenco que inclui Rita Cabaço, Beatriz Batarda e Margarida Marinho.

Óculos de Sol Pretos”, de Pedro Ramalhete, uma comédia satírica mordaz sobre a condição artística em Portugal, seguindo dois ex-colegas de cinema confrontados com as dificuldades e contradições do meio.

Óculos de Sol Pretos, de Pedro Ramalhete

Nas curtas-metragens, sobressaem “Dois e um gato”, de Patrícia Saramago, “Vivo Morto”, de Marco Leão e André Santos, e “Monstro”, de Nuno Baltazar.

Na Competição Internacional, destacam-se propostas como “Blue Heron”, de Sophy Romvari, sobre uma família húngara que se muda para a ilha de Vancouver; “Intersecting Memory”, de Shayma’ Awawdeh, que revisita memórias da Segunda Intifada através de imagens em VHS; e “Os Arcos Dourados de Olinda”, de Douglas Henrique, que parte de um episódio insólito para explorar a história recente de uma cidade brasileira.

Entre o culto e o desconcertante

Na secção Director’s Cut, regressa António Carlos da Fontoura, depois de “Rainha Diaba” ter passado pelo festival em 2023. Este ano apresenta “Espelho de Carne”, numa nova cópia digital. Baseado num texto de Vicente Pereira, o filme mantém o seu estatuto de clássico provocador.

Para quem procura experiências mais intensas, a secção Boca do Inferno volta a apostar no desconcertante, com títulos como “Obsession”, de Curry Barker, e “Index”, de Radu Muntean. A habitual maratona realiza-se a 8 de maio, no Cinema Ideal, com 411 minutos de duração.

Na secção Silvestre, destacam-se “Phantoms of July”, de Julian Radlmaier, e “Taxi Moto”, de Gaël Kamilindi, enquanto o IndieMusic apresenta “The Blind Couple from Mali”, de RyanMarley.

18 Buracos para o Paraiso de João Nuno Pinto,

Novíssimos e o universo IndieJúnior

Os novos talentos afirmam-se na secção Novíssimos, com nomes como Maria Moreira e Victor Hugooli em “Abril de Helena”, João Nunes Monteiro em “Éramos Só Putos” e “A Culpa é da Água”, de Ana Leonor Guia, Marta Quintanito Roberto, Ruben Pinto e Tiago Magalhães.

Para os mais novos, o IndieJúnior volta a ser um dos pilares do festival, reforçando a aposta

na formação de novos públicos e no contacto precoce com o cinema. Nas sessões ao ar livre do Cinema na Piscina, nas Piscinas da Penha de França, há espaço para o humor com “Monty Python and the Holy Grail”, de Terry Gilliam e Terry Jones, e “Les vacances de Monsieur Hulot”, de Jacques Tati.

Les vacances de Monsieur Hulot de Jacques Tati

À noite, o Indie by Night volta a animar a cidade, com a Casa do Comum e as Damas como pontos de encontro principais, além de eventos no Purex e na Casa Capitão. O IndieLisboa volta a afirmar-se como um dos momentos-chave do cinema na cidade, comuma programação diversa que continua a apostar na descoberta e no risco.