SEGURAR, DAR, RECEBER

Texto por Rafael Vieira


Anozero – Bienal de Coimbra regressa a Coimbra com exposições, performances e arquitectura para pensar a arte enquanto espaço de relação, reciprocidade e hospitalidade

Nan Goldin, «Stendhal Syndrome», 2024 _ Anozero_26 © Jorge das Neves

A edição de 2026 da Anozero – Bienal de Coimbra decorre até 5 de Julho e volta a espalhar-se por vários espaços de Coimbra, com um programa que cruza exposições, performances, música e visitas orientadas.
Com curadoria de Hans Ibelings e John Zeppetelli, e curadoria assistente de Daniel Madeira, a bienal parte do tema «Segurar, dar, receber» para pensar a exposição enquanto espaço de relação,
interdependência e hospitalidade.

Adam Broomberg and Rafael Gonzalez _ Anchor In The Landscape, 2024 © Jorge das Neves


Mais do que procurar um tema fechado ou uma linha conceptual rígida, o Anozero’26 parece construir-se
a partir da própria ideia de habitar. Habitar uma cidade, habitar um espaço expositivo, habitar o mundo em conjunto. O ponto de partida está na raiz protoindo-europeia *ghabh, associada simultaneamente aos verbos «segurar», «dar» e «receber». A escolha não é apenas linguística. Funciona quase como uma
tentativa de recuperar uma ideia de reciprocidade num tempo marcado pela aceleração, pela desigualdade e pela erosão das relações colectivas.

Melonen (2025), . Thomas Demand _ Anozero_26 © Jorge das Neves

Há algo de particularmente pertinente nesta abordagem num momento em que grande parte das cidades parece desenhada para circulação rápida, consumo e produtividade permanente. O Anozero propõe precisamente o contrário. A exposição deixa de ser entendida apenas enquanto lugar de contemplação para passar a funcionar enquanto território de encontro, escuta e troca. A arte surge menos enquanto objecto autónomo e mais como possibilidade relacional.

Maria Trabulo, «se estas pedras falassem», 2026 _ Anozero_26 © Jorge das Neves

Essa dimensão ganha ainda mais força numa cidade como Coimbra. Há uma ligação silenciosa entre o
discurso curatorial e a própria história urbana da cidade, marcada por sucessivas transformações,
deslocações e tensões entre memória e renovação. Coimbra conhece bem os conflitos entre preservação e destruição, permanência e expulsão, património e reinvenção. Nesse sentido, a bienal parece dialogar não apenas com os espaços que ocupa, mas também com as marcas acumuladas da cidade. A forte presença da arquitectura nesta edição reforça essa ideia. A arquitectura surge aqui menos enquanto
disciplina isolada e mais enquanto forma de pensar modos de vida, relações humanas e possibilidades de
comunidade. Não interessa apenas construir espaços, interessa perceber o que esses espaços permitem,
acolhem ou excluem.

RUI CHAFES Anozero_26 © Jorge das Neves

No texto curatorial surgem referências às ideias de ajuda mútua de Piotr Kropotkin e à visão da simbiose
desenvolvida por Lynn Margulis. A bienal recupera essas ideias para pensar práticas artísticas e
arquitectónicas que recusam uma lógica puramente competitiva e afirmam antes a interdependência, a
horizontalidade e a reciprocidade.

Num contexto internacional marcado pelo crescimento de discursos autoritários, medo e exclusão, o
Anozero’26 assume uma dimensão discretamente política. Não através do manifesto directo ou da
espectacularização da crise, mas pela insistência em valores hoje quase contra-corrente, como
generosidade, escuta e partilha.

Talvez seja precisamente aí que reside a força desta edição. Na ideia de que a arte e a arquitectura
dificilmente mudam o mundo de forma imediata, embora possam alterar a maneira como o vemos e
habitamos. E, por vezes, transformar a percepção já é uma forma de começar a transformar a realidade.

ADRIANA MOLDER, o meu rosto está aqui, no fogo fátuo, 2021 _ Anozero_26 © Jorge das Neves

O Anozero – Bienal de Coimbra decorre até 5 de julho de 2026, em vários espaços da cidade de
Coimbra, com entrada livre.

Espaços: Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, Círculo Sede, Círculo Sereia, Museu da Cidade de Coimbra
— Sala da Cidade, Museu da Cidade de Coimbra — Edifício Chiado — Convento São Francisco, Jardim
Botânico, MUSEU

Lista de participantes: Chantal Akerman, Christian Andersson, Jonathas de Andrade, Vasco Araújo,
arquivo mangue, Lina Bo Bardi, Taysir Batniji, Frédéric Bruly Bouabré, Arno Brandlhuber e/and
Constanze Haas, Inês Brites, Adam Broomberg e/and Rafael Gonzalez, Alberto Carneiro, Centrala, Rui
Chafes e/and Candura, Julian Charrière, Sandro Chia, Colectivo SEM-FIM, Luisa Cunha, Eva Davidova,
Thomas Demand, Forensic Architecture, Arturo Franco, Nan Goldin, Shilpa Gupta, Inside Outside,
Kosmos, Juha Lilja, Mário Macilau, Fina Miralles, Adriana Molder, Office of Adrian Phiffer, Pezo von
Ellrichshausen, João Salema, Taryn Simon, Charles Stankievech, Mungo Thomson, Maria Trabulo, Pedro
Vaz, Carlos Ferrand Zavala, Anarchism and Planning, Three rooms, Xenia — aNC, Atelier Local,
Ateliermob, Colectivo Warehouse, Fala, fr-ia, JQTS, Nuno Valentim, Paula Santos e Pedra Líquida.


Curadores: Hans Ibelings e John Zeppetelli; curador assistente Daniel Madeira


Mais informação: www.anozero26bienaldecoimbra.pt