Texto por Hugo Pinto

Don West abre o último dia do NOS Alive da melhor maneira. Ao fim da tarde, abre o palco principal com uma soul apetitosa. Com dois sopros e um teclado a dominar o som, o jovem alto, louro, bonito e garboso, faz as delícias dos muitos que se acumulam perto do palco. De ambos os sexos diga-se. Há muito de Marvin Gaye aqui e isso nunca é mau. Ele ser branco e giro não cola com este som negro e histórias de amores desavindos. No fim, só interessa a música e a de Don West promete.

Don West


Fidju Kitxora no Clubbing a partir a louça perto das 18h. Ele é o maquinista mas não vem sozinho: Há um baterista, uma viola do jazz fusão e um percussionista que também toca cordas. Juntos fazem uma eletrónica dançável. Há quase sempre África, mas menos que o esperado. Bons beats, bons samples, bpm do afrotuga e muita vontade de abanar a anca. Quando cheguei não estava muita gente, quando saí estava ali o mundo a dançar. Fidju na área a marcar pontos.

FIDJU KITXORA, fotografia SARAHAWKKK


Teddy Swims no palco principal, a caminhar pras 19h, faz o pop rock que o caracteriza. Muita gente em palco para uma música profundamente americana. Ele, tatuado a cores, tem aquele ar de guna bandido, pouco coincidente com as músicas românticas R&B que debita. Vi várias estrangeiras mais velhas, com t-shirts dele, achei piada a isso. Pelo meio há uma versão de “Jump” de Van Halen, só para compor o ramalhete.


Alguns dados curiosos da clássica conferência de imprensa e Álvaro Covões: 160.000 pessoas presentes. O palco literário foi um sucesso. Nos Alive de volta a 8, 9 e 10 de Julho de 2027. Mais de 100 nacionalidades detetadas, mais de 100.000 stories partilhadas. O concerto dos Foo Fighters foi transmitido para o mundo inteiro pela SIC.

Depois de jantar fui ao palco Heineken e espreitei os Pixies. Havia uma multidão imensa a impedir-me de entrar na tenda. Deu para perceber que já não havia Kim Deal e escapei de mansinho para Redoma no Coreto. Um trompete lounge, uma batidinha do trip-hop e uma voz feminina a rappar. Três jovens portugueses curtem muito a fazer um som algo inesperado. João Pedro Dias, no trompete, usa uma maquineta de efeitos, com meia dúzia de knobs e um sample. Estão a promover o álbum “Santos da minha mente” editado o ano passado pela Biruta Records. Se isto fosse impecavelmente produzido, o país e o mundo deixavam-se levar por este beat. Estavam 17 pessoas frente ao palco Coreto. Eu contei. Tudo o que tenho a dizer ao embaraço das jovens perante a ausência de público é… Se não te mata, faz-te mais forte! (E já agora, invistam num bom produtor/técnico de som… tipo da IDM… ou dos Beats).

NOISERV, fotografia HUGO MACEDO

Noiserv apresenta-se no palco Heineken a rondar a meia noite. Está rodeado de instrumentos no meio do palco. Só ele. Não é preciso mais ninguém. Pop adulta de quem já não tem nada a provar. Eletrónica para ouvir no sofá ponteada por instrumentos acústicos samplados live. Tudo cheio de bom gosto. É difícil não gostar disto. Aprecio essencialmente a capacidade que ele tem de contar uma história. Os seus dotes técnicos, que se refletem não são só no modo como toca vários instrumentos mas também nos arranjos dos seus temas, fazem dele um caso único no panorama musical português. Há pelo menos 15 anos que é assim. Temas clássicos e singles novos fizeram as delícias dos muitos que preferiram Noiserv a tudo o resto. Muito bem caro David Santos.


Antes da uma fui lá para a frente assistir ao concerto dos Buraka Som Sistema. O seu primeiro Ep, “From Buraka To The World”, foi editado à 20 anos. É um disco seminal. O Afrotuga nasceu ali, a editora Principe proliferou internacionalmente a partir de ali, a malta de muito do hip-hop tuga da actualidade ainda ali bebe. Branko, desde sempre o mentor dos BSS, além de uma sólida carreira a solo, fundou a editora Enchufada. Riot e Conductor desmultiplicam-se em vários projectos discográficos desde então.

O concerto foi uma festarola pegada. Houve todos os hinos, houve convidados inesperados como Petty, a primeira vocalista da
banda e houve um cuidado com a imagem e a cenografia que impressionam qualquer um. Toda a gente dançou aquele mambo, os beats de Branko estiveram impecáveis, Riot na bateria esteve no tempo certo. Na linha da frente, Kalaf, Conductor e Blaya souberam mobilizar a multidão e, entre truques mais ou menos óbvios e coreografias ensaiadas, puseram todos a dançar o afrotuga.
Foi uma festa bonita, pá.


Depois das 2 da manhã começa Modeselektor no Clubbing. Um set que começa com agradecimentos em português e se expande para todo o lado. No início muito tecno, depois bass music, por fim IDM. Tudo bem colado, sem rebuçados, sem tempos mortos.
Gostei. Pena a hora tardia que me fez abandonar a meio. O Nos Alive acabou na energia da melhor música de dança, a nacional e a internacional.


Para o ano há mais.

BURAKA SOM SISTEMA, fotografia de ARLINDO_CAMACHO