Texto Tatá Seixo
Fayxka é uma artista multidisciplinar brasileira, natural de Ipatinga, Minas Gerais, que atravessa linguagens como design, 3D, inteligência artificial, serigrafia e som. O seu trabalho move-se entre o digital e o físico, da criação de joias em impressão 3D à produção de peças de roupa e colagens visuais. As suas obras são marcadas por um imaginário afro-futurista e surrealista. Além disso, atua como DJ, expandindo a sua pesquisa estética para o campo da música e da performance.

Com formação inicial em web design ainda na adolescência, Fayxka cresceu entre imagens, softwares, colagens e experimentação. Desde que se mudou para Portugal, em 2016, tem desenvolvido uma prática que funde arte, tecnologia e cultura urbana, explorando novas formas de criação híbrida. A sua formação é baseada na sua curiosidade, trocas com pares e autodidatismo: um percurso de artista-pesquisadora intuitiva, movida pela experimentação e pela mistura de técnicas.
Durante a pandemia, a artista mergulhou noutros softwares de imagem, explorando a criação de animações 3D. Ela descreve esse período como uma fase em que, como refere, “ficou bem mais digital”. Aprendeu a modelar objetos e formas próprias, inicialmente com o desejo de criar visuais para VJing (prática de criação e manipulação de imagens e vídeos projetados em tempo real durante performances musicais) e de criar o seu arquivo.

Com o investimento num novo computador, comprado graças ao trabalho como sex worker, ela aprendeu a trabalhar com outros programas, que a permitiram experimentar projeções e manipulação de vídeo. “O meu intuito desde o início era ser VJ, eu comprei um projetor e ficava em casa brincando”.
A entrada no 3D marca uma mudança de linguagem, mas também uma mudança interna. É nesse momento que a obra de Fayxka deixa de funcionar apenas como experimentação visual e passa a construir uma mitologia própria, onde corpo, transição e tecnologia se tornam inseparáveis. Fayxka conta que começou a transitar nesse período, e isso atravessa a sua relação com as formas: corpos, silhuetas e esculturas tornam-se extensões da própria transformação.

Deste trabalho surgiu o desejo de tornar o digital palpável. Ela conta que também quis sempre imprimir as suas criações 3D, mas só testou depois de algum tempo. O processo de impressão revelou um universo novo: peças que se encaixam, montam e desmontam, como quebra-cabeças, legos ou amuletos.
Há, no entanto, uma recusa constante da categorização no trabalho da artista: os objetos nunca pertencem totalmente ao campo da moda, da escultura ou do design, existindo antes como artefactos mutáveis.
Essas peças podem ser esculturas, jóias, bolsas, ou objetos híbridos, pensa-as como parte de um acervo digital pessoal, um “The Sims acervo”, como ela descreve: “um guarda-roupa digital de esculturas que podem existir tanto em miniatura quanto em escala monumental”.

Essa ideia de montagem/desmontagem “tipo megazord” aparece como metáfora do corpo, da identidade e da criação artística. A impressão 3D, para ela, é uma forma de dar vida real àquilo que era só arquivo, resgatar o toque e o objeto depois de muito tempo no digital.
Ela define-se como alguém que faz uma “arqueologia digital”, criando amuletos, facas, plantas e corpos de poder inspirados em culturas pré-coloniais (africanas e latino-americanas). São objetos imaginários, mas com raízes ancestrais, que poderiam um dia ser descobertos num “HD soterrado na areia”. A arte, nesse sentido, é escavação e invenção: criar um passado possível para o futuro.
Com o surgimento do MidJourney (software de inteligência artificial generativa que cria imagens a partir de descrições em texto), a artista entrou numa nova fase: a da criação com IA generativa, o que a permite produzir imagens, texto ou som a partir de comandos e bases de dados.
Ela recorda que começou quando o software ainda era gratuito e aberto na plataforma de comunicação online Discord (muito usada por gamers e desenvolvedores de software), e que ali havia uma comunidade anarquista e experimental, de troca livre. Chegou a ter comissões e colaborações com teatro e performance, incluindo o agora extinto Planeta Manas, onde fez uma performance de VJ com projeções de imagens criadas por si.
“Eu sou bem fissurade a estudar inteligência artificial no geral, mas nunca entrei no ChatGPT, não tenho interesse, nem nunca trabalhei em OpenAI. Mas uso muito o MidJorney e aí, você fica a construir os seus prompts e a ver os prompts de outras pessoas, e tudo fica livre para qualquer pessoas pegar, baixar ela e falar que é dela também. E a partir daí comecei a postar coisas. Tive alguns trabalhos com teatro, a “Make a Tea, Summon a Demon” de Vez Liberta, por exemplo. Foi a primeira vez que estive fora de Portugal desde que cheguei. Ela fez esta peça, que tinha roupa da Alectra Rothschild / MASCULINA e beep_et_cetera no som.”
A artista tem uma visão crítica e mística sobre a tecnologia. Ela entende a Terra e as máquinas como partes de uma mesma rede viva: “não existe o natural e o artificial, tudo é transmutação do natural”. Mas denuncia o circuito colonial que sustenta o digital: o cobalto e os minerais extraídos por pessoas negras em África, enviados aos EUA para montar computadores, que depois voltam como lixo eletrónico, assim como refere os litros de água desperdiçados com as tecnologias IA. Esse ciclo de exploração e descarte é, para ela, a metáfora central do colonialismo digital.
“Os minerais têm vida, a Terra é uma máquina, e a internet habita essa máquina”. A ética, portanto, não é apenas sobre direitos autorais, mas sobre quem detém o poder e quem sofre com ele. Fala ainda numa “rebelião das máquinas”, onde sugere uma aliança simbólica entre máquinas e pessoas oprimidas, porque ambas são exploradas. “Se um dia as máquinas ganharem consciência, talvez se juntem às pessoas escravizadas, e não aos donos do sistema”.
A entrada na música veio de forma espontânea. Durante a pandemia, começou a frequentar clubes como o Planeta Manas, onde mais tarde passou a trabalhar e tocar. Nunca teve ambição de “ser DJ”, apenas de “passar som” numa prática livre, sem pressão de carreira, fama ou competição. Aprendeu com amizades, partilhando equipamento para tocar música digitalmente, e explorando o prazer da mistura. Seja no som, no 3D ou na imagem generativa, Fayxka trabalha sempre a partir da combinação, manipulação e recontextualização de fragmentos.
Para ela, tocar é um ato de comunhão e de poder: perceber como o som “controla a mente das pessoas” e devolver esse poder de forma consciente e libertadora. Apesar de ter começado de forma amadora, foi naturalmente evoluindo e é hoje uma das mais prolíferas e ecléticas djs da cena queer lisboeta, contando várias atuações nos clubes da capital portuguesa e ainda com um programa na Rádio Quântica, No Grau.
A artista expandiu ainda sua pesquisa para a joalheria experimental e o design sustentável. Ambiciona criar peças recicladas e duráveis, transformando lixo plástico em filamentos para impressão 3D. Sonha também com um estúdio-laboratório, onde possa testar materiais como látex, borracha, silicone, e fundir tecnologia e natureza num mesmo gesto criativo.
No fundo, o que orienta seu trabalho é a ideia de preservar e reinventar a memória. Cada peça, seja digital ou impressa, sonora ou performativa, é uma tentativa de dar corpo a algo que foi apagado, de recriar histórias e imagens perdidas no nosso inconsciente.