Sábado, 4 de Julho de 2026
Texto de Hugo Pinto

Emily Robb no Museu da Tapeçaria às seis da tarde. Uma jovem americana franzina, com ar de rocker mas sem tatuagens, com um sorriso enorme e uma simpatia contagiante, apresenta-se em modo solo com uma guitarra elétrica e um amp Fender poderoso.
Pedro Costa, o curador do Portalegre JazzFest, adverte para o volume alto do concerto. Diz ele que este amplificador pede volume para poder brilhar, eu acredito. Ora, uma das curiosidades coloridas deste festival, é um conjunto de portalegrenses mais velhos
que aproveita os concertos gratuitos ao fim da tarde. Ficam até ao fim, mesmo quando o som é complexo e desconstruído ou quando o nivel de volume pede ouvidos supostamente mais jovens. Adoro. Já agora, onde estão os jovens de Portalegre? Não há estudantes?! Ninguém tem curiosidade para ouvir música nova?! Eu percebo a pica que os leva para as esplanadas de música chunga frente ao CAEP. São as hormonas, o alcóol, a gritaria… Percebo isso tudo porque também lá estive com essa idade.
Percebo menos a falta de curiosidade. Concertos gratuitos ás seis de tarde e depois das onze e não aparecem? It’s just weird.

De volta a Emily Robb e áquilo que interessa, a música.Começa um noise distorcido, com laivos de blues mas mais drónico. Ela, de olhos fechados, de postura contida, como se não tivesse a mandar a casa abaixo, A onda de som sente-se no corpo e na alma tal como nas paredes e pilares. Música de tal modo visceral que transforma um concerto numa experiencia algo mística. O volume, a frequência, a distorção, o pedal… è tudo aumentado. Tudo excessivo e arrebatador. Ocorre-me Cramps mas não é bem isso. É mais quem os inspirou. Nomeadamente Bo Diddley, Chuck Berry e Sister Rosetta Tharpe. Alem claro, do próprio John Fahey. Foi ela que disse, não eu.
Percebo as referências porque o blues impregna o longo tema com que Emily nos presenteou, A música também se quer estimulante. Mesmo quando o som possa incomodar, há sempre espaço para a descoberta. Emily deu um concerto do qual ninguém saiu indiferente.

Depois de uma janta afável, é no CAEP que o guitarrista luso Mané Fernandes apresenta o projeto Matriz_Motriz. O piano de João Grilo, numa dança entre o contido e o expansivo, acompanha as três cantoras que completam este ensemble, Sofia Sá, Vera Morais e Mariana Dionisio. Música algo complexa, com muito espaço, onde as vozes pontuam a amplitude da guitarra de Mané Fernandes. Nesta paisagem aberta é João Grilo que pinta mais cor. Sim, a atenção prende-se naturalmente ás vozes mas é o piano que bate. Mané, num registo muito seu, acrescenta e modifica. É o condutor de veiculo afinado, já muito ensaiado, a espaços previsível mas quase sempre de ouvido fácil. O trio de vozes começa percussivo, depois a guitarra amansa o som.
A fronteira do jazz com a clássica contemporânea é extensa e ardilosa. Há quase sempre um frieza que torna o clima inóspito, Mané transforma isso numa cor garrida. A composição, e a liberdade das cantoras na interpretação, alteram o jogo dinâmico entre o quem ouve e quem toca. A que devo prestar atenção? Ao detalhe ou á mood? É cacofonia ou técnica e forma? Dir-me-ão que é tudo o mesmo. No fim, Grilo rouba a cena. (Há que ficar atento a este homem). Confesso que o concerto não me inspirou. “It’s not you, it’s me”, right?!
Nota-se que a temperatura baixou quando saímos do CAEP para os claustros do convento. Que surpresa terá Aksel Røed guardada para o último dia?! Leio que é um trio com Tore Ljøkelsøy, o baterista do primeiro dia, e com o contrabaixo de Magne Thormodsæter . Lembro-me que, neste mesmo sítio, na noite anterior, entre duas cervejas, tinha comentado a elevada qualidade do duo com um nórdico na assistência. Ele disse que tinha sido professor de Aksel, justificadamente cheio de orgulho. Reparo agora que é Magne Thormodsæter.

Aksel arranca o concerto com uma citação de Sonny Rollins em Way Out West e estava dado o mote. Temas originais que parecem standards da golden age do jazz. Tudo em bom, portanto. Há laivos de hard bop, cortados com solos libertos de qualquer fórmula. Há uns dias, no carro, a caminho do rio, alguém meteu um cd do Joe Chambers e o banco de trás, com Aksel e Tore, manifestou imediatamente o seu apreço pela escolha. Relembro-me disso agora, tal como alguns planos iniciais dos bons filmes fazem sentido quando chega a sequência final. O segundo tema é calminho… E tão bem parido. Tem um baixo que não pára e uma bateria que cumpre no ambiente pretendido, como uma vassoura nas mãos de um cota. E o sax? É aquele som que agrada não por ser fácil, ou óbvio, ou espectável, mas sim porque é rico em detalhes e forte sem gritar.
É o jazz, agora a sério. Há uma alma neste trio que invade o público. É um concerto aberto, sem script, onde a familiaridade do jazz “clássico” cativa entendidos e ocasionais. É também destas comunhões que se faz o Portalegre JazzFest. No fim, de papo cheio, resta-nos parabenizar a entrega dos músicos, a generosidade da organização e a disponibilidade de quem foi assistir. Espero que para o ano seja melhor. Sempre melhor.