Quinta-feira, 2 Julho de 2026
Texto de Hugo Pinto
No dia mais quente do ano ía para a cidade mais quente do país. O motivo? O Portalegre JazzFest. Com 3 melómanos num carro, durante duas horas, há sempre muitos motivos para ofender, admirar, aprender e rir. Rir muito.
Ao chegar a Portalegre vi uma ave de rapina a pairar e lembrei-me dos westerns. Quando saimos do carro o ar queimava. “Se calhar deixamos as coisas no hotel e vamos á barragem tomar um banho”. “A barragem” é a da Apartadura, onde o chão é de pedras que fazem doer os pés e a água é limpa mas turva. Não há um café nem sequer um sítio decente para estender uma toalha.
Há silèncio. A água é um caldo fresco, qual Medusa, não custa entrar mas é impossível querer sair.
São seis da tarde. Combinámos na esplanada do hotel para subirmos ao Museu de Tapeçaria Guy-Fino. Subir é uma constante desta Portalegre circa muralhas. Um centro histórico vazio, algo anacrónico, com raros turistas. São lojas abandonadas, outras
quase a renovar. Prédios estreitos onde o tempo joga tetris na fachada fazendo cair azulejos. O átrio do auditório do Museu serve de casa ao ciclo “Guitarra Primitiva Americana”, um termo cunhado por John Fahey para designar um género primordial. Como se, antes da guitarra ser do jazz, da folk ou do blues, tivesse havido algo superlativo. São concertos solo, para uma plateia de 50 pessoas, sempre muito bem composta.

O americano Kelby Clark toca um banjo bonito. É grande, cheio de detalhes e tem um som bastante peculiar. Começa com notas espaçadas, em repetição. Depois solta-se num som, nem fácil, nem difícil, mas estranho. Deixa um substrato de western a preto e branco com lágrimas de desespero e um rodopio em crescendo que se desvanece num slide pouco acentuado. Há India? E a andaluzia magrebina? (Kelby confirmou depois, em amena conversa, que o banjo partilha com as tablas determinados tons). Por fim mais rápido, a galope, com tanto a acontecer. No segundo tema, mais calmo, há muito ar, continua em modo raro e estranho.
Ao terceiro tema um dedilhado simpático prende-me. Aquele som extra-sensorial, que te leva corpo-e-cabeça para fora de aqui.
O último tema começa mais tradicional, entendido aqui num modo bastante lato. Rapidamente vira fucked-up, como se tivesse uma voz zangada. Acabando num rasganço. Em alto e bom som. Fico deliciado.
São sete e meia quando chegamos cá fora e subimos para jantar. No “Cavalinho”, uma longa mesa em U, permite conversar com os músicos que calham nas imediações e gera-se um convívio saudável entre nórdicos, tugas e americanos. Entre secretos de porco preto e bacalhau á casa, há bocas aos ZZ Top regadas com postas sobre o Mundial de Futebol.

São quase nove e subimos para o C.A.E.P. (Centro de Artes e Espectáculos de Portalegre). Um anfiteatro moderno com um, já raro, primeiro balcão. Sara Serpa, a portuguesa de voz quente que vive em NYC, actua com o pianista Matt Mitchell. Ambos apresentam “End of Something” editado pela Obliquity em finais do ano passado. Primeiro parece-me mais próximo da clássica contemporânea que do jazz. Ela tem algum lirismo e muita doçura na voz. Noto, no modo como a voz dela encaixa no piano, que este concerto é rodado. Há uma música inspirada em Virginia Wolf e outra num Haiku nipónico. Ainda um poema de Sophia de Mello Breyner. É tudo algo erudito. E até aqui algo frio.
Há no entanto momentos em que este scat desacelerado e post moderno, me encanta. Ele toca que se farta. E de repente, o jazz vocal de Sara começa a brilhar. Impressive my dear, quite impressive I must say. Agora há mais piano… Mais lírico, discreto e no entanto tão ritmicamente irrepreensível. Entretanto Sara rebenta com isto tudo através de uma amplitude surpreendente. Em “News Cycle“, tema sobre o frenesim dos media, Sara dispara notas como o martelar de um telex. É a imagética perfeita para uma crítica mordaz á cacofonia telejornaleira. No fim é tudo muito cerebral and definitely not my cup of tea.

Quando saí o calor ainda era muito mas lá me arrastei para os claustros do Convento de Santa Clara. Aqui o foco, ao longo dos três dias, era a cidade norueguesa de Bergen. E havia um ator principal, o saxofonista Aksel Røed. Um jovem corpulento com quem me tinha rido durante os banhos vespertinos e mais ainda durante o jantar. Reparei que tinha “Ornette” tatuado na perna. Nesta primeira noite apresentava-se no seu Røe Quartet. O ano passado ouvi aqui grandes rasganços nórdicos e esperava para hoje doses maciças de free. Mas não. Sim, havia obviamente a improvisação liberta implícita ao jazz contemporâneo mas a música era outra. Era um som surpreendentemente old-fashioned. E que bem tocado era. O contrabaixista Ola Høyer encheu-me as medidas. Tinha aquele andamento que faz bater o pé e anima a alma. Houve um vento chatinho que resolveu implicar com os microfones mas nada de preocupante. Estávamos todos demasiado dentro do som que vinha do palco. Uma música parecida com os standards da golden age mas fresca nos solos.
O que me espanta é sempre a qualidade desta malta nova. Pode-se atribuir isso ao saber académico, que os leva a interpretar estes “clássicos modernos” com enorme mestria, mas eu prefiro destacar a irreverência da juventude. Há uma dose de loucura em cada solo, em cada sopro, em cada batida. Ninguém se atropela, ninguém quer brilhar, só interessa a música. É tudo um luxo para quem assiste e não se resigna. No fim, já depois dos aplausos, quem quis, ficou a beber cervejas e conversar.