Texto de Hugo Pinto
O Parallel Society decorreu nos dias 6 e 7 Março num enorme armazém de Marvila. No primeiro dia o tema era a tecnologia e a privacidade, mais o ativismo e as criptomoedas, a partilha de ficheiros e relação de tudo isso com a arte.
Num ambiente tranquilo, carregado de geeks, entre workshops e demonstrações de produtos, houve oportunidade de conhecer um dos fundadores do Internet Archive e de ouvir falar malta nova que lida com problemas recentes. Foi interessante, mas as minhas expectativas estavam todas nos concertos do segundo dia.

Cheguei ao final de tarde e ainda deu para ver o quinteto de jazz português Abajour Nanok. Jazz elétrico, com aquela fusão de funk e soul, redondinho e tranquilo de se ouvir. Ainda havia pouca gente mas a malta parece ter aderido.
Seguiu-se as Los Bichos, um quarteto feminino de surf rock inglês, que aqui actuou com um jovem na guitarra solo. Barulhentas e divertidas, têm ainda aquela frescura de banda nova. Com grande atitude em palco, estas jovens podem singrar nos próximos anos.
Moses Boyd é um baterista da nova cena de jazz inglês que deu nas vistas com Dark Matter de 2020. (Eu prefiro-o no duo Moses & Boyd com o saxofonista Binker Golding). Já o tinha visto por cá no ID_Fest, há uns 6 anos, num quarteto de jazz clássico. Agora, no entanto, é tudo muito diferente. Este quinteto de bateria, baixo, teclados, voz e guitarra faz um soul jazz muito cool, onde os teclados muito 70’s de Dian Gasper e a voz, muito neosoul britânica, de Leyla elevam o padrão.
Não sendo fresco, ouve-se muito bem. Aquela coisa muito Smooth FM e Jazz na relva. São um quinteto de jazz de fusão elétrico (Again?!), tem temas engraçados e outros meio melosos. Haverá sempre público p ara isto e aproveitaram para mostrar o novo disco a sair lá mais para o verão.
Clark é o senhor que se segue. Ele, senhor de uma discografia cuidada entre bandas sonoras, ambient e música eletrónica, marca a segunda década deste século como poucos. Há em si uma miríade de géneros que, embora nalguns casos possam ter nascido noutros tempos, renascem por ele atualizados.

O concerto foi extraordinário, um dos melhores concertos a que já assisti. Não dava para estar quieto, era uma fusão de breakbeat e drum & bass com tecno, uma mistura explosiva que me bateu na alma. Dancei, suei, sorri e arrepiado, fechei os olhos e viajei. Fui ao Ciclone da Cool Train Crew, depois ao Lux com o Shadow e acabei na terra do LTJ Bukem a comer alcachofras com o Villalobos. Uff…
Clark não pára de rodar botões, acelerando e atrasando, lançando pistas mil e clips sujos, tudo embrulhado num ritmo maquiavélico, onde os breaks estão no subnível dos baixos e nada se mantém intacto por 5 segundos.
Tudo o que ouvimos é exclusivamente produzido por Clark. Todos os beats, todas as batidas, em todos os teclados que rodeiam o homem em palco. Atrás dele, são projectadas imagens cuidadas, entre a videoarte e o minimalismo gráfico. É tudo uma alegoria sofisticada, um bailado a 190 BPM e a materialização da contemporaneidade sónica
Entre cada tema havia pausas mais ambient que serviam de rampa de lançamento (a mim permitiam-me só respirar), para a nova loucura que se adivinhava. E nunca desiludia. No fim, com a alma a transbordar de felicidade, extenuado e sorridente, tive de me sentar dez minutos só para voltar à terra. É de momentos destes que se faz uma vida.
Depois de Clark veio Gilles Petterson, pioneiro da música eletrónica e senhor de um currículo invejável. Começou o seu dj set com o imaginário brasileiro e seguiu numa atitude lounge a que nem faltou a voz do saudoso MC Galliano.

Os temas podem ser de agora, mas a onda é dos anos 90, entre a Viena do Kruder e as remisturas de world music na editora Talking Loud. Um set seguro, muito doce e tranquilo de ouvir mas, depois da loucura de Clark, parecia-me algo pueril.
Apparat, de seu nome Sasha Ring, veio apresentar o seu último álbum, A Hum Of Maybe, uma das boas surpresas deste ano. O primeiro concerto desta digressão ficou marcado por vários problemas técnicos. Entre a mesa e a banda, os equipamentos e o som, houve um pouco de tudo a correr mal.
Começou por surpreender, ver Apparat de guitarra na mão. A sua voz está cada vez mais segura e ainda assim é frágil. Apparat ofereceu uma pop eletrónica, cada vez com mais instrumentos acústicos. É mais fácil que Moderat e longe da frescura de Walls, o magnífico primeiro álbum de 2007. A Hum Of Maybe f unciona melhor em estúdio mas há potencial para ser um melhorconcerto.
Já perto da meia noite e meia, Kode9, o nome artístico do autor, editor e músico Steve Goodman, partia a louça toda numa sala adjacente. Eram BPM pesadas e rápidas, com mais tecno e menos dub que o esperado. O ambiente estava mais compacto nesta sala e toda a gente parecia estar a curtir aquela velocidade. Eu já estava demasiado cansado para tanta correria.
Fiquei com a melhor impressão do Parallel Society. A organização é simpática e prestável, o espaço cumpria e o público portou-se muito bem.
O primeiro dia foi didático e os concertos do segundo dia valeram mesmo a pena.
