O Lago dos Cisnes de Daniel Gorjão

Texto por Manuela Marques

«O Lago dos Cisnes», de Tchaikovsky (1876), ganhou, recentemente, outra dimensão e leitura que, intencionalmente ou por acidente, nos revela uma íntima relação com o mito de Narciso. Na versão de Daniel Gorjão, com música de Máximo Francisco e libreto de André Tecedeiro, o icónico bailado reescreve-se numa perspetiva e estética contemporânea, carregando questões vigentes, nomeadamente, a da identidade de um Corpo – Ser Humano –, diverso e complexo. Um convite a re-pensar sobre a autenticidade desse Corpo, físico e psicológico, em metamorfose. O espetáculo, cuja premissa é a ruptura do cânone, começa, logo, por desfazer um reflexo – aparência –, negando ao público o deleite com a imagem perfeita do ballet clássico.

Teatro “O Lago dos Cisnes” de Daniel Gorjão, Centro Cultural de Belém, Foto: José Carlos Carvalho

O dispositivo cénico, espelhado, reforça a ligação entre «O Lago dos Cisnes»e o mito de Narciso, que se evidencia pelo uso simbólico da imagem, do desejo projetado e da trágica ilusão. Ambas as tramas mostram o perigo de amar imagens – sejam elas reflexos ou disfarces, que nesta remontagem são as convenções –, e como isso pode levar à perda, à dor e até à morte, no caso, a do self. A beleza, o amor e a identidade são espelhos nos quais as personagens se perdem.

Nesta reinterpretação, as personagens de «O Lago dos Cisnes» adquirem voz, usam a Palavra como movimento que esclarece e situa o seu papel na narrativa, uma vez que são fluídas. Contudo, servem arquétipos presentes na natureza humana, expõem as suas dualidades, como as que figuram no ser Cisne, símbolo de elegância e transformação – é um animal que carrega contrastes profundos, entre leveza e peso, graça e violência ou pureza e instinto.

Teatro “O Lago dos Cisnes” de Daniel Gorjão, Centro Cultural de Belém. Foto: José Carlos Carvalho

À beira do lago – espelho – que é o cenário da mudança e da transição para a verdade escondida, todas as personagens lidam com a sua falha narcísica e como possuir o seu objeto de desejo – a alienação do sujeito por oposição ao eu autêntico. Um mergulho nesse lago, aparente maldição por parte de Rothbart, quebra o reflexo, a superficialidade, a imagem-ilusão que se tem de si-mesmo, ao contrário do sucedido com Narciso, que sucumbiu à sua vaidade. Esse mergulho age como reparação do olhar, rompe o espelho narcísico para possibilitar a reconstrução do self, de uma identidade autêntica – como comprova a personagem Siegfried após ser coagida a fazê-lo. Mais tarde, Siegfried confessa que ao emergir teve uma nova oportunidade de Ser: mais íntegra, mais verdadeira e menos alienada da sua essência.

Este mergulho, rito de passagem do eu ilusório para o eu autêntico, opera como metáfora para a reparação do olhar, ou seja, do modo como nos vemos para o que realmente somos. No desenrolar do enredo, desta (re)criação, o fado de mergulhar repete-se com outras personagens. Primeiro com Odette – símbolo de ingenuidade e de uma identidade fragmentada –, e posteriormente com Odile. Esta personagem mergulha no lago a fim de reencontrar Odette, mas acaba condenada a ser o reflexo do seu objeto de desejo – como representação do ego narcísico, ou melhor, da imagem ilusória e sedutora que o ego humano projeta e deseja.

Importa re-olhar – reparar – a entidade Rothbart, que reiteradamente surge vilanizada, desta feita como sendo signo de parentalidade tóxica – uma mãe controladora e moralista mas em conflito com a sua consciência, alter ego. Rothbart é encarada como sendo vilã da história. Todavia, detém responsabilidade nesse mergulho, como reparação do olhar, facto que adensa a análise desta figura antagonista: podendo ser vista menos como inimigo externo e mais como agente necessário da transformação. Rothbart encarna o que o ego teme mas precisa de enfrentar, é agente do confronto com o que a consciência recusa. O seu intento e sua ação são um paradoxo, ao empurrar as personagens para submergir no lago livra-se delas como obstáculos mas permite que estas alcancem a sua liberdade.

Teatro “O Lago dos Cisnes” de Daniel Gorjão, Centro Cultural de Belém. Foto: José Carlos Carvalho

Sem Rothbart não haveria mergulho. Há uma carga psicológica e filosófica no ato de mergulhar porque este gesto significa atravessar o reflexo, quebrar a ilusão – partir o espelho – e entrar num espaço onde a verdade do self pode ser reencontrada. Rothbart é, então, uma figura-limite entre o caos e a revelação. Qual o percurso e o desfecho da história sem esta persona?

Submersa, a peça termina em celebração, o bailado acontece, finalmente, e transborda para a plateia: as personagens dançam numa rave. Por vezes, a intuição chega antes do discurso. Neste Lago dos Cisnes, Daniel Gorjão desarruma a obra original, rejeita o virtuosismo e transporta-a para os dias de hoje, fazendo vislumbrar um drama simbólico da alma – existência – humana, de condição irresolúvel. Desponta, ainda, o seguinte enigma: Seria Narciso, afinal, um patinho feio?

«O LAGO DOS CISNES», de 28 a 30 Maio, no CCB (Lisboa) · Direção artística DANIEL GORJÃO · Texto ANDRÉ TECEDEIRO · Interpretação BATATA, DUARTE MELO, INÊS CÓIAS, RITA CAROLINA SILVA e ZÉ COUTEIRO · Apoio à criação MARIA JORGE · Assistência de encenação e produção JOÃO CANDEIAS · Desenho de luz SARA GARRINHAS · Música original MÁXIMO FRANCISCO · Sonoplastia e desenho de som MIGUEL LUCAS MENDES · Apoio ao movimento MARIA AZEVEDO CARVALHO · Direção técnica SARA GARRINHAS e SÉRGIO JOAQUIM · Execução de figurinos JACQUELINE ROXO · Execução de cenografia FP Solutions · Assessoria de imprensa ShowBuzz · Imagem promocional DUARTE AMARAL NETTO · Registo fotográfico JOÃO COSTA · Produção TEATRO DO VÃO