Texto de Sofia Seixo Garrucho

Luan Okun, Trans Não binário, nasce em Ituiutaba, no interior de Minas Gerais, e chega a Lisboa em 2018. Tem vindo a ser conhecido na capital portuguesa pelas performances que apresenta desde 2020, onde a sua principal ferramenta é o corpo, “uma corpa dissidente de gênero, racializada e gorda” e a razão dessa escolha “vem do desejo e força individual de romper com estruturas condicionantes aos nossos corpos pela normatividade e colonização”.

Será ele a inaugurar a residência “Vénus em Libra”, elaborada pelo Plano V (coletivo composto por Joanadagua, Lua Felina e Astronauta Mecánico) em parceria com a Casa Independente, e que decorrerá neste mesmo espaço, de 3 a 31 de Março. A instalação performática decorrerá das 18 às 22 horas do dia de hoje, e as pessoas trans têm entrada gratuita.

Sofia Seixo Garrucho coloca a Luan algumas questões que aprofundam o seu percurso, o seu íntimo e, com isso, o seu trabalho.

Iniciaste os estudos artísticos em 2014 e estudaste teatro na Universidade Federal de Uberlândia. Desde muito cedo que percebeste que querias para a tua vida, fazer performance e viver da arte?

Venho de um contexto interior, nasci em Ituiutaba- MG, e lá não havia nada de eventos culturais. É uma cidade pequena, com poucos habitantes, poucos acessos e extremamente conservadora. O único teatro que havia era um teatro falido. Os poucos concertos que havia na cidade eram sempre de música sertaneja, e que não era a cena que sentia.

Na adolescência, por volta dos 14 anos, comecei a estudar no Instituto Federal do Triângulo Mineiro, e nessa escola comecei a ter outros tipos de acessos. Tinha outra qualidade comparada com as escolas públicas na qual estudei todo o ensino fundamental (primário). Lá, os professores eram em sua maioria de outras cidades, tinham tido outras experiências para além do conservadorismo de Ituiutaba, tinham-se construído de outra forma. Essa escola foi muito importante para mim no processo de entendimento, conhecimento e acesso artístico e social.

Foi aí que tive a oportunidade de assistir ao primeiro espetáculo de teatro, de conhecer performance. E tive a oportunidade de sair para outras cidades do Brasil, apresentando e conhecendo outras formas de se fazer arte e de se colocar no mundo. Essa escola, eu falo, que foi a porta do armário, que saí pra viver o mundo.

Foi aí que me apaixonei à primeira instância pela arte. Pensei “porra, é isso! Através do teatro posso transformar minha realidade”. Acreditava que isso era interessantíssimo. Entrei em uma ilusão de salvação pela arte. Essa paixão perdura, mas de acordo com as andanças e crescimento, percebi que não era bem assim.Quando comecei a trabalhar com arte profissionalmente, e na tentativa de fazer alguma renda, percebi que o processo artístico seria complicado, e não tão romântico como vinha sonhando..

Hoje em dia, com vários processos de entendimento da normatividade e racismo estrutural no meio artístico já encaminhados, percebo que não me interessa ser denominado como artista. Não vou mais clamar por palavras que sempre me foram negadas. Não vou bater mais na tecla ou ficar dando murros em ponta de faca para ser considerado como tal (e considerado por quem?)

Disseste que não te consideras artista. Se não te afirmas como artista, afirmas-te como o quê?

Me afirmo como um sobrevivente. Durante muito tempo não me enxergava, sabia que era uma pessoa não branca, mas não sabia ao certo onde poderia me encaixar, então sempre houve uma lacuna na minha autoidentificação, na minha “humanidade”, sempre ouvi que era mulata, que deriva do cruzamento de um cavalo e de uma mula.

Então compreendo que, não é importante me reivindicar como tal. Primeiro, como ser humano; segundo, como artista. Porquê? quem é que me diz o que sou, ou o que deixo de ser? Porque esse poder está nas mãos de outres e não nas minhas? Se a branquitude e a cis-generidade me dizem que o meu lugar não é como artista ou como humano, eu confirmo! E que eles façam bom aproveito de suas humanidades, que convenhamos… está fadada.

Eu vou compreendendo que tenho diversos outros caminhos possíveis para além de ser artista e de ser humano. Então me enxergo como sobrevivente apenas. E um fazedor de coisas. E aí vou falar “coisas” mesmo, porque nem tenho pretensão de achar uma palavra para resumir o que faço.

Então a descoberta do teu amor pela arte e pela tua vocação veio desse rompimento com a sociedade cis-heternormativa e branca?

Primeiramente descobri qual não era a minha vocação, antes de compreender qual era a minha vocação. E, já agora, não acredito em vocação, acredito mais na dedicação, no desejo e nas oportunidades. Mas enfim, já estava quase terminando o ensino médio, e toda aquela pressão para escolher qual era o curso que iria fazer. E até então não tinha conhecido o teatro ou as artes performativas.

Antes disso, olhava para tudo o que me era apresentado, o que minha mãe e o meu pai almejavam para mim, “lamento, mas não é isso que quero”. Ainda não sabia o que queria, mas já sabia o que não queria. Não queria ser médico, não queria fazer engenharia, química, matemática.

A fórmula do sucesso sempre passou bem longe das artes, daí te pergunto mais uma vez, sucesso pra quem? A quem pertence essa narrativa de sucesso e quem a mede? Depois é que fui compreender, “ah ook” , então tenho a possibilidade de fazer teatro.

Tiveste algumas apresentações em teatros ou casas de espetáculo ainda no Brasil?

Sim, diversas! Tive a oportunidade de andar bastante pelo Brasil, tanto com a Escola Federal onde estudei, depois comecei o curso de teatro na Universidade federal de Uberlândia e lá aproveitei mais das andanças do que qualquer outra coisa. Hoje em dia, me arrependo um pouco de não ter aproveitado os grupos de estudos de iluminação, mas me permitiu também ter diversos conhecimentos e trocas que não teria dentro da academia.

Comecei no Instituto Federal do Triângulo Mineiro e tive a oportunidade de me apresentar em Florianópolis, no Fórum Mundial de Tecnologia. Já apresentei no Teatro Municipal de Uberlândia, que até então era um teatro quase que intocável por pessoas que estavam na cidade, principalmente pessoas pretas, trans e artistas locais. A gente conseguiu ocupar esse espaço!

Também já apresentei no Teatro Municipal de Blumenau, chiquérrimo, que foi até construído em homenagem a Adolf Hitler. Esse espetáculo foi babado: 40 atores pretos, a maioria trans, e a cidade ficou: “aaaaahhhhh”, em choque, confesso que em alguns momentos me sentia em um filme na europa. CORRA!!!

Também no dragão do Mar em Fortaleza, tínhamos na plateia o Ator e Diretor Zé Celso do Teatro UzinaUzona, que não economizou elogios ao espetáculo e a minha atuação. Tive a oportunidade de andar por diversos espaços públicos onde muitas das vezes o meu corpo não era aceite, mas fui furando as barreiras e adentrando, e sei que ainda tem vários outros espaços para ocupar. E só consegui entrar nesses espaços depois de trabalhar na rua, foi lá que comecei a fazer teatro. Depois é que fui entrando nesses espaços mais castrados e institucionais.

O teu trabalho é bastante politizado, nomeadamente ao nível da bio-politica, das políticas de orientação e género sexuais, e ainda da decolonização. É impossível separares estas questões da tua arte?

Não, não é impossível. E também não me vejo fazendo arte política. Infelizmente várias opressões perpassam meu corpo, pela minha vivência, pela minha história. E aí utilizo esses atravessamentos para a criação, para o meu fazer artístico. Vivendo nessa sociedade, e tendo como base o caminhar da minha corpa, percebo que é complicado falar de outras temáticas. Mas percebo também que isso vem muito mais do olhar externo do que propriamente do meu.

Às vezes estou falando de outros mundos, mas o olhar alheio já condiciona o trabalho de pessoas racializadas e queer a uma só temática.

É interessantíssimo e até prefiro que o outro trabalhe e crie por sua própria experiência, o que é que ele sente ao se deparar com uma obra, com a performance ou instalação. E aí lamento que as pessoas fiquem presas nesse lugar “político”, não que não ache importante, mas também percebo que o meu corpo é capaz de pensar outras coisas, de fruir outras cenas.

Ultimamente tenho pensado muito no lugar do mistério, não quero dar resposta para meu trabalho, não pretendo vir com uma cartilha já escrita do que é que isso representa, significa e do que é a obra para mim. O significado para mim, isso já sei, agora o que me interessa é quando esse trabalho entra em contacto com outros corpos. O que frui na cabeça das outras pessoas? Daí não acho impossível, mas acho complicado sair desse lugar, porque é um lugar que me é empurrado.

Mas, como uma cobra rasteira, estou tateando outras possibilidades de fazer, que não seja engessado como algo político ou de resistência, ou arte queer ou anti-racista. Estou apenas sendo na sociedade da forma como ela foi construída. E aí se o meu corpo não consegue ir, vir, fazer e criar da forma como ele é, aí já é problemático e me vejo na obrigação de questionar esses pontos tidos como certos e como norma.

Porque é que decidiste mudar-te para Lisboa?

Decidi mudar-me para Lisboa de uma forma muito inconsciente de fuga. Queria sair de Uberlândia, porque já estava nesse processo de não aguentar mais viver só a Universidade e no interior, como já referi. É sempre uma luta imensa para que a arte independente e local seja reconhecida, valorizada e paga.

Então já estava com a ideia de sair de lá, mas sem saber para onde ir. Estava indeciso entre São Paulo, Salvador e Lisboa. Então, ao conversar com Exú, Ele me aconselhou a ir para um lugar onde pudesse viver outras realidades. E aí eu entendi que esse lugar era fora do Brasil. Juntei todas as moedas e vim.

E quando aterras em Lisboa és bem recebido?

(risos) Então, aí… Não. Não foi uma experiência boa no início e continua não sendo. Comecei a trabalhar em arte de rua como estátua viva, no Verão. Até aí tudo bem, estava conseguindo sobreviver, mas acontece que passei por diversos despejos, fui morar numa Okupa. Nesse tempo comecei a trabalhar em restauração, onde passei por diversas cenas de preconceito, racismo, xenofobia e diversas outras coisas.

Trabalhei durante um ano num espaço onde fiquei à espera de um contrato de trabalho que nunca chegou, e a Patroa prometendo sempre algo que não vinha. Fui aceitando isso porque estava numa situação muito precária, deplorável mesmo.

Depois de quase um ano, fui demitido, sem ter o contrato. Ou seja, fiquei um ano servindo sem ter nem o mínimo: acesso a documentação. Era através desse contrato que nunca tive, e que poderia dar início aos processos burocráticos para obter a documentação. Então foi um ano perdido, de muita violência.

Esse espaço fez isso com diversas outras pessoas e ficou impune, porque os patrões portugueses estão sempre a contratar pessoas em situação de emigração e que precisam de documentação, então há a promessa de ceder uma documentação que nunca acontece e essas pessoas ficam sem nenhuma perspetiva.

Os patrões não dão o que é necessário para você se fixar no país, e você fica sempre nesse lugar de explorado, em que os patrões usam do que você pode dar e depois eles te descartam, como se você fosse mercadoria. Depois desse caso eu adoeci muito..

E tu também estás ligado a Casa T, certo?

Estou sim, a Casa T foi criada no meio do caos, pandemia, adoecimentos, despejos… Pude ser acolhido e ter um momento de respiro. Até então estava no meio da pandemia, estava todo o mundo parado em casa menos quem limpa, quem dirige, quem te vende … Muita gente continuou a trabalhar, não teve outra alternativa. Passava todo o dia a limpar para conseguir pagar a minha renda e nem sobrava para comida ou transporte. Tudo coisas que são necessárias para a nossa sobrevivência, ninguém vive só de teto.

Então a Casa T veio justamente nesse período em que estava totalmente adoecido e lá pude respirar e me organizar minimamente. Estou ligado à Casa T, inclusive na construção dela, na fase inicial. Fui um dos primeiros moradores, juntamente com a Puta da Silva, Gabriela Gomes. Chegamos lá e não havia nem um colchão, sabe? Depois que consegui sair de lá, ainda não me encontro num lugar totalmente confortável, ainda estou no malabar de saber como é que faço tudo, o que é necessário para a minha sobrevivência.

A Casa T foi um lugar de extrema importância para poder me enxergar um pouco mais autônomo. Ali foi o meu processo de fortalecimento e de cura de uma doença. Fiquei lá um ano, fazendo trabalhos e auxiliando em tudo o que fosse necessário. Depois que saí de lá, tive que tirar um tempo para mim, para entender quais eram os próximos passos a serem dados, mas ainda assim continuo naquele espaço de coração.

A Casa T ainda precisa muito muito muito de contribuições e de auxílio, é um espaço que ainda não conseguiu apoio por meios da Câmara e Estatais, não tem nenhuma ajuda pública. Sobrevive através de contribuições voluntárias, de financiamentos do Go Fund Me, e claro, também, através de trabalhos que as pessoas da casa desenvolvem.. Então é sempre muito importante estar contratando pessoas da Casa, convidar a Casa para conversas e palestras, para estar presentes em espaços artísticos. A maioria das pessoas que lá vivem são artistas independentes.

A Casa T é de extrema importância, não apenas para mim. Apesar de agora estar noutro lugar e não almejar voltar para lá, desejo que aquilo seja um lugar de passagem para todes. Me sinto mais seguro agora, do que há dois anos atrás, em que não via nenhuma perspetiva de acolhimento, saber que tem para onde correr, saber que vai ter acalanto e uma família à sua espera faz toda diferença. Me sinto mais seguro inclusive para alçar novos voos.

Como surgiram os projetos “O jeito que o corpo Dá” e agora, mais recentemente, “Cu” ( r ) andeiro?

“O jeito que o corpo dá” surge depois de uma tentativa de suicídio, que fiquei internado e desacordado por algumas horas. Passei por muitos lugares durante esse período que estive desacordado. Tive muitas visões e quando acordei e comecei a tentar entender o que tinha se passado, me deu vontade de narrar os lugares em que estive.

Ao ficar tanto tempo parado percebi que era preciso voltar a trabalhar e a movimentação do corpo sempre foi de extrema importância para a minha saúde, para me sentir saudável. Quando estava na Casa T e tive esse período de recuperação, não precisei estar correndo entre trabalhos precários que não me permitia criar. Tive espaço para pensar no meu trabalho e no que gostaria de construir daquele momento para frente.

Estava em uma gira de Exú, escutei dizendo que “escorregar não é cair, é o jeito que o corpo dá”. Essa frase ficou martelando em minha cabeça. Depois que tentei juntamente com a sociedade dar fim a minha vida, fiquei me culpando muito por ter chegado nesse ponto. Só que fui compreendendo que era justamente isso: que só tive um escorregão, escorreguei, mas que ao mesmo tempo, juntamente com os que me protegem, encontrei formas de me levantar.

“O jeito que o corpo dá” surge dessa transição, dessa tentativa de passar para palavras, para o corpo, para uma comunicação humana e performática o que enxerguei do outro lado, e qual foi o processo para chegar nesse não lugar.. E também no sentido de dizer que para tudo tem um jeito, que se for necessário, vou recriar formas de estar vivo. E isso me permitiu que me cobrasse menos, me martirizasse menos. Que até hoje, fiz tudo da forma que podia, da forma como o meu corpo conseguiu, da forma que o meu corpo deu. Então ele surge daí.

E o “Cu” ( r ) andeiro”, que é o Cu andeiro, Curandeiro, é uma ramificação do “O jeito que o corpo dá”, porque quando comecei a fazer a performance surgiram as andanças, comecei a apresentar a performance em lugares diferentes, e a cada apresentação, a cada contato com a plateia, a cada palavra que escutava de pessoas diferentes, tudo ia-se modificando. considero que “O jeito que o corpo dá” nunca vai ser uma performance acabada. Ela é uma obra inacabada e que está em constante mudança.

A pessoa que assistiu a 1ª, a 2ª, a3, a 4ª vez, ela nunca vai assistir do mesmo jeito, nunca vai ser a mesma performance. Porque através dessas andanças vou compreendendo o que faz mais sentido no que quero comunicar, mesmo que às vezes não tenha a pretensão final de ser entendido, o que quero que vá para o mundo do mistério e do invisível, quais são as pessoas que compreendem aquilo que estou falando e quais as pessoas que não compreendem, e se é importante compreender.

Então o “Cu ( r ) andeiro” surge da ramificação do “O jeito que o corpo dá”, juntamente com outros trabalhos que fui construindo ao longo do caminho em que estive mais parado nas apresentações/aparições. Percebo que trago desse trabalho muitos elementos e coisas que daria ainda para mais debates e apreciação, outros mistérios e curas, para outras movimentações.

“Cu ( r ) Andeiro” é um parto normal de mãe e pai solteiro!! Considero ainda que o “Cu ( r ) andeiro” vai ser uma instalação performática sempre viva, que as pessoas que passam por lá modificam-na. Porque meu trabalho é energético, não só para mim, mas também para as pessoas que passam para trocar. É um cu que movimenta, que não pára. E aí vem novamente a importância do movimento do corpo. Todas as vezes que me vejo mais estagnado, são os momentos em que eu me vejo mais doente. E quando me vejo andando, caminhando, errante e acertante, me vejo mais saudável. Então, quando percebo que meu cu está conseguindo andar seja para onde for, vejo um pouco mais de saúde, de cura, de vida e possibilidades.