Jeff Wall

Fotografias, 1980–2023

Texto de Francisco Vaz Fernandes

O MAAT apresenta um grande número de obras de Jeff Wall, uma das mais vastas exposições realizadas até hoje sobre um dos artistas visuais de maior referencia nos anos 90. É a sua primeira exposição individual em Portugal e o projeto curatorial de Sergio Mah, é por si um dos mais importantes que se realizam em 2025

Time Stands Still. Fotografias, 1980–2023 reúne 63 obras, que preenchem totalmente o edifício MAAT Gallery. Imagens que refletem os vários temas que o artista tem privilegiado ao longo da sua carreira: cenas da vida quotidiana, tensões e dramas inerentes às sociedades modernas e contemporâneas, como a solidão, a pobreza, a alienação, a violência urbana, o abandono e a exclusão social.

Jeff Wall Tattoos and Shadows, fotografia, 2000

Jeff Wall surge num contexto artístico canadiano que até então não tinha tido grande voz, e como tal, constituía uma novidade no panorama internacional. De novo traziam um discurso sobre a retórica das imagens, que desconstruía o que tinha sido o cinema e a fotografia até então, assim como a produção televisiva. Basicamente tratava-se de um discurso inserido no pós-modernismo que explorava os valores desses media na construção do imaginário social que rege as sociedades. Não era um discurso singular , nem inaugural, porque de outras partes do mundo outras vozes também já começavam a explorar essas vias mais inquisitivas dos processos de construção das imagens.

No caso de Jeff Wall , a fotografia seria o seu foco. As imagens destacavam-se por serem de grandes dimensões e por estarem inseridas em caixas de luz tal como podemos ver em certos dispositivos de publicidade nas cidades. Para esta geração novas possibilidades técnicas da reprodução de imagens em suportes cada vez maiores muitas vezes usado em outdoors trouxe-lhes a possibilidade de pensar as suas imagens em formatos muito ampliados. O mundo da publicidade , na forma como impactava na sociedade em geral trazia-lhes também esse desafio de sobreviverem em termos de impacto, tanto em ambientes interiores de exposição como exteriores, nos casos de arte pública. Jeff Wall como grande parte usou a grande escala para romper com a tradição fotográfica, desinstalando-a do seu nicho e inserindo-a num campo mais vasto, das arte contemporânea. Ao mesmo tempo retirava-lhe aquela aura de obra de arte, colocando-a num dispositivo do quotidiano em que em geral os indivíduos na cidade apreendem as imagens.

Jeff Wall Insomnia 1994

Olhando agora para as imagens, verificamos que grande parte parecem documentar um momento único de uma ação. Parecem documentar algo irrepetivel que justificava por si o momento e a natureza fotográfica, uma perspetiva muito clássica cristalizada pelas perspetivas de Henri Cartier-Bresson. Para o fotografo francês, no aqui e agora, procurava-se no essencial um olhar humanista, onde questões sociais eram subjacentes. Esse olhar humanista fez escola e mantém-se ainda tal como podemos ver no world photo, que continua a ser um sucesso em termos de adesão pública.

Jeff Wall After Invisible Man by Ralph Ellison the Prologue 1999-2001

Jeff Wall tb explora o efeito desse olhar humanista , mas não é extraído de um momento dado, mas a partir de uma construção desse momento. Assim quando vemos dois homens que se chocam numa rua fazendo com que um liquido derramado se projete no ar, esse momento construído, repetido até se encontrar o momento ótimo, tal como se faz no mundo da publicidade ou do cinema. Há uma veracidade porque é um instante que antes de existir já o tínhamos no nosso imaginário. Nesse sentido, as imagens do Jeff Wall reconstroem as imagens que já temos. A fotografia deixa de ser refém desse encontro único, emocional e subjetivo, que justifica a fotografia e alimentava o olhar humanista. Pelo contrario, ela é emancipada, pensada com objetividade e passa a ser uma reconstrução do artista que comunga de um imaginário comum.

Vistas gerais da exposição Jeff Wall Time Stands Still. Fotografias, 1980–2023, no MAT, Lisboa




As situações e cenários documentados pelo fotografo pertencem ao imaginário de todos, são de alguma forma momentos caricatos que reconhecemos e até vivemos. As reconstruções procuram dar quadros credíveis banalizados longe de todo o exotismo que os torne únicos como encontramos na fotografia clássica. Por outro lado as imagens , sempre em grande dimensão, com múltiplas personagens remetem-nos para as grandes pinturas clássicas que registavam no essencial grandes momentos heroicos. Apesar de despejado desse heroísmo, onde a vida na verdade se expõem na sua banalidade, ainda assim a arte de Jeff Wall inscreve-se na tradição da grande arte, revisitando formalmente os seus temas maiores.

MAAT Gallery

23/04–01/09/2025