Texto de Lara Mather

Esta quinta-feira, 29 de janeiro, o país foi surpreendido pela triste notícia da morte súbita do realizador português João Canijo.

Com uma obra que ultrapassa os 15 filmes, João deixa um legado extraordinário, afirmando-se como um artista que explorou, com coragem e sensibilidade, a fragilidade da vida humana, a complexidade das relações e os laços familiares. Nos seus filmes, mulheres fortes ocupam muitas vezes o centro da narrativa.

Aluno de Manoel de Oliveira em 1980, iniciou-se na carreira como assistente de realização e estreou-se como realizador em 1985. Em 2023, foi distinguido com um Urso de Berlim pelo filme Mal Viver, parte de um díptico que inclui Viver Mal.

Mal Viver

O primeiro explora uma família de mulheres, marcadas por mágoas e rancores, que gerem um hotel. O segundo mostra as diferentes vidas dos hóspedes. Entre todas as personagens, vemos a carência, a revolta, mas também o desejo profundo de sermos amados, ouvidos e de nos apoiarmos mutuamente.

Em Mal Viver, o papel de mãe é explorado com uma intensidade tocante. O cinema de João Canijo é um cinema onde o amor raramente é apaziguador e onde as relações familiares estão atravessadas por uma violência emocional silenciosa, presente desde os primeiros filmes até à obra mais recente.

Em Sangue do meu Sangue (2011), um dos seus filmes mais populares, acompanhamos uma família que vive num bairro social, Padre Cruz. O documentário Trabalho de Atriz, Trabalho de Ator (2011) mostra o processo de criação do guião, os ensaios e as discussões sobre as personagens entre realizador e atores, uma verdadeira aula de direção de atores para quem estuda cinema. O filme questiona o significado do amor incondicional, mostrando, no meio das adversidades, o sacrifício pelos que amamos. Um filme intenso, cheio de nuances, que merece ser visto sem spoilers.

Em Fátima (2017), João Canijo acompanha a peregrinação de 11 mulheres portuguesas a pé desde Bragança até Fátima. O processo de construção das personagens, a partir das experiências das atrizes, foi fundamental. Todas fizeram a peregrinação como pesquisa e documentaram a sua experiência em diários, que serviram de base para o guião. O filme celebra, acima de tudo, a força destas mulheres, enquanto a fé passa para segundo plano.

João Canijo, com o urso de prata atribuído no Festival de Cinema de Berlim

A “assinatura” de João Canijo também se reflete nas atrizes recorrentes do seu cinema: Rita Blanco, Anabela Moreira, Beatriz Batarda, Cleia Almeida e Íris Macedo que formam um repertório emocional, conferindo continuidade e densidade à sua obra.

À data da sua morte, João Canijo encontrava-se em pós-produção dos filmes Encenação e As Ucranianas, ainda sem data prevista de estreia.

João Canijo deixa-nos um cinema que é profundamente humano, cru e português. Um cinema que nos faz sentir, questionar e refletir sobre o amor, a família e a vida. O seu legado permanece, imortal, nas histórias que nos contou e nas personagens que nos tocaram.