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Lara Mather

Em outubro, o mundo inteiro cabe em Lisboa. O DocLisboa regressa entre 15 e 25 de outubro para a sua 24.ª edição, reunindo 198 filmes provenientes de 51 países. Entre a memória histórica, a música, a política e a experimentação cinematográfica, o festival volta a afirmar o cinema documental como espaço de encontro entre diferentes geografias, experiências e perspetivas sobre o mundo.

“Thanks for Coming”, Alain Cavalier

As sessões distribuem-se pela Culturgest, pelo Cinema São Jorge, pela Cinemateca Portuguesa e pelo Cinema Ideal, com uma programação que se estende também a outros espaços culturais da cidade. A abrir esta 24.ª edição esteve “Guerrilha no Asfalto”, de Edgar Pêra, uma obra que cruza arquivo, ficção e inteligência artificial para revisitar a memória de um ex-operacional das FP-
25 e o contexto político e social dos anos 80. O encerramento fica a cargo de “Thanks for Coming”, do veterano cineasta francês Alain Cavalier.

Abel and Cain, Lino Brocka


A retrospetiva desta edição é dedicada a Lino Brocka (1939–1991), uma das figuras centrais do cinema filipino. Organizada em parceria com a Cinemateca Portuguesa, «Lino Brocka – Matem o Artista Nacional» reúne 19 filmes, incluindo 11 obras restauradas, e percorre uma filmografia marcada pela representação das desigualdades sociais, da pobreza e da repressão política nas Filipinas. Entre o cinema popular e o cinema de autor, a obra de Brocka afirmou-se como uma forma de resistência cultural durante a ditadura de Ferdinand Marcos, em consonância com o seu posicionamento anarquista e o seu compromisso com a liberdade de expressão.

“Kate Bush – The Timeless Genius”, Sonia Gonzalez


Entre as secções desta edição, a Heart Beat reúne filmes que cruzam cinema, música, cultura popular e figuras marcantes do imaginário coletivo. Um dos destaques é “The Fight”, de William Greaves, apresentado na versão director’s cut de 1973, restaurada em 4K. O filme revisita o histórico combate de boxe de 1971 entre Joe Frazier e Muhammad Ali em Madison Square Garden, que resultou na primeira derrota da carreira profissional de Ali. A secção inclui também “Once Upon a Time in Harlem”, de David Greaves, filho de William Greaves. Entre os documentários dedicados à música encontram- se “Kate Bush – The Timeless Genius”, de Sonia Gonzalez, sobre a cantora britânica Kate Bush, e “Neste Quarto”, de Ana Rocha de Sousa, que acompanha a fadista Carminho durante a sua digressão pelo Japão. A Heart Beat aborda ainda a diáspora cabo-verdiana em “Nha Balila – Dentu d’Algem”, de André Xina e Inês Alves, e o percurso do futebolista francês Eric Cantona em “Cantona”, de David Tryhorn e Ben Nicholas.

“13 Alfinetes”, João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata


Na Competição Internacional, “13 Alfinetes”, de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, integra um programa que explora diferentes possibilidades do cinema documental. Também em competição, “For the Moon”, de Éric Baudelaire, acompanha o trabalho colaborativo de cinco estudantes com deficiência visual, propondo uma reflexão sobre a perceção e os limites do visível.

“Visitas de Uma Parente Afastada”, Inês Oliveira

A Competição Portuguesa reúne 11 estreias mundiais e volta a colocar em evidência a diversidade da produção nacional. Entre os títulos apresentados encontram-se “Povo e Poder”, de Ico Costa, “Os Continuadores da Revolução”, de Pedro Neves, “A Voz de Todos – Jornal do Fundão”, de Manuel Mozos, e “Visitas de Uma Parente Afastada”, de Inês Oliveira. A revisitação da história e a recuperação de narrativas menos conhecidas assumem particular relevância na secção Da Terra à Lua.

“Amílcar”, de Miguel Eek

Entre os filmes a descobrir encontram-se “What Comes from Sitting in Silence?”, de Sophie Schrago, e “Amílcar”, de Miguel Eek, retrato de Amílcar Cabral, agrónomo, poeta e revolucionário que liderou a luta anticolonial na Guiné-Bissau e em Cabo Verde. É também nesta secção que o festival apresenta um foco dedicado à preservação e ao acesso aos arquivos de cinema da Palestina. O programa reúne cinco filmes de Aude Fourel e Monica Maurer, além da cópia restaurada de “Tall el Zaatar” (1977), de Mustafa Abu Ali, Pino Adriano e Jean Chamoun. Distribuídas por três sessões nos dias 21 e 22 de outubro, no Cinema São Jorge, as exibições contam com a presença de Monica Maurer e Aude Fourel. A programação inclui ainda, a 21 de outubro, a mesa-redonda Tracing Palestinian Film Archives: Access and Archival Justice.

carta a uma jovem escritora de Marta Pessoa


Por sua vez, a secção competitiva Verdes Anos dedica-se a primeiras obras e a novas vozes do cinema, reunindo 11 filmes que exploram diferentes linguagens e perspetivas cinematográficas. É um espaço particularmente importante para acompanhar os caminhos que os realizadores emergentes começam a traçar e as perspetivas que introduzem no cinema contemporâneo.


Entre a revisitação do passado e a procura de novas linguagens, o DocLisboa 2026 propõe um programa que ultrapassa a simples observação da realidade. Esta edição recorda-nos que documentar é também decidir o que preservar, que histórias contar e que imagens transmitir às gerações futuras.


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Lara Mather