Sexta-feira, 3 de Julho de 2026

Texto de Hugo Pinto

Hein Westgaard


Começa o segundo dia do JazzFest em Portalegre com o mesmo bafo quente na rua. Saí do hotel para o carro a caminho de Portagem, uma praia fluvial no sopé de Marvão. Uma água fria, útil perante a elevada temperatura exterior. Entre a malta, comenta-se o dia anterior e antevê-se os próximos.


São seis e meia da tarde. No Museu da Tapeçaria, o norueguês Hein Westgaard apresenta a sua visão da tal guitarra primitiva americana que dá nome ao ciclo. Apresenta temas curtos, (canções?), de uma delicadeza tocante. Música fácil de gostar que rapidamente nos envolve. Ao segundo tema, que me remete para uma canção de embalar, pergunto-me porque não é este
jovem simpático muito mais conhecido, tal a capacidade que possui de escrever temas á guitarra tão bonitos. Fico perplexo quando ele afirma que todas as composições são suas, tal a riqueza das mesmas. Podiam ser populares, tocar nas rádios e encher estádios.
Com sentido de humor apurado e quase sempre de sorriso largo, dedica um tema ao recentemente desaparecido Abdulah Ibrahim. Em “Berlin Stop”, há uma demonstração incrível de técnica. Algo acelerado, algo a correr, mas sempre a dar-lhe em escalas no modo fingerpicking. O Paredes haveria de gostar disto… O Ricardo Rocha também.


“Turkey” não tem refrão, nem se repete, nem há avacalho ou erudição, é “só” uma canção bonita. E quão raro é ser “só” isso. É tudo de uma inocência quase pueril, entre a banda sonora de uma série infantil e a guitarra folk de Davey Graham. Há um apropriado tema de Fahey para acabar em beleza. No fim, fiquei encantado com a mestria deste jovem. Se algum dia tiverem oportunidade de o ver e ouvir, é a não perder. A minha senhora entretanto chegou da capital e está sedenta de boa música e muito descanso. Veio ao sítio certo. Os secretos de porco preto do “Cavalinho” cairam bem e seguimos para o CAEP.

Sexteto de Jazz de Lisboa

O Sexteto de Jazz de Lisboa apresenta-se para a comemoração dos seus 40 anos. É uma espécie de All-Stars, senão vejamos: Mário Laginha ao piano, Mário Barreiros na bateria, Francisco Brito no contrabaixo e os metais de Tomás Pimentel, Edgar Caramelo e Ricardo Toscano. Tudo gente batida, tecnicamente irrepreensível, com nome na praça e incapaz de tocar mal.
O sangue novo de Toscano e Brito acrescentam vitalidade e frescura ao som, a mais-valia de tocar com cromos do jazz nacional permite-lhes ir mais longe no seu caminho. Abre com a linha de sopros à frente a comandar, quando saem de cena e fica só o trio, fica melhor. Laginha em casa, a solar solto, entra Toscano, em sopros fortes e ainda assim contidos. Há muita alma nisto. Ao segundo tema entra o outro Caramelo em quarteto. Bom, mas sem a contenção de Toscano, o piano e o baixo “salvam” a peça. O concerto segue entre o trompete de Pimentel em regime cool jazz e um solo de contrabaixo
bastante discreto.


Os temas começam todos com os três metais, depois saem um ou dois, o piano domina, eventualmente um solo de um sopro, voltam os outros, solo de outro sopro ou de piano. O que digo é que há uma fórmula. A mim, isso cansa-me, ao muito público que se dirigiu ao CAEP, nada incomoda e parecem adorar. Valha-nos isso, Senhor. No final ficou-me um concerto de jazz bem tocado, certinho, com as notas todas no sítio certo. Um Sexteto de Jazz durar 40 anos é por si só uma odisseia digna de louvor, em Portugal devia dar direito a condecoração e datas no Coliseu.

Duplexities


Segue a noite nos Claustros do Convento de Santa Clara para nova aventura de Aksel Røed, desta vez em duo com o baterista Kåre Opheim no projecto Duplexities. Jazz rasgado, um saxofone espiritual e uma bateria livre. Pleno de energia, com muita presença em cada momento, Aksel e Kåre deram tudo o que tinham numa hora. O saxofone mais clássico e melódico, a bateria mais desconstruída, abandonando o swing e enveredando por caminhos obtusos e inesperados. Há um sentido de estar no agora, neste tempo preciso, em que os solos só fazem sentido numa improvisação pouco preocupada com fórmulas académicas e mais interessada na intensidade que o próximo segundo pede. Sei que se tocarem amanhã, noutro palco, noutra cidade, tudo vai ser diferente. O concerto de Duplexities deixou-me enérgico e contente. Venha de lá uma cerveja com estes bacanos nórdicos para que a noite acabe numa gargalhada.