Texto de Taty Cool
Num momento em que os grandes palcos da moda se voltam para Paris e as semanas de moda dominam a agenda internacional, Portugal continua a revelar talentos que merecem um olhar atento. Há menos de um mês, o jovem designer Manel Baer apresentou Apocalypsis, uma coleção que reafirma o seu lugar como uma das vozes mais promissoras da nova geração da moda portuguesa.

Há quatro anos que Manel Baer constrói, de forma independente e longe dos grandes holofotes mediáticos, um percurso marcado pela consistência, dedicação e absoluta liberdade criativa. Cada coleção representa um novo capítulo da sua identidade artística, sem concessões às tendências ou às fórmulas previsíveis da indústria.
Apocalypsis não foi apenas um desfile; foi uma experiência imersiva. O público foi transportado para um universo onde a linguagem deixava de ser portuguesa para dar lugar a um idioma próprio, simbólico, capaz de estabelecer uma ponte entre o bem e o mal. A narrativa desenrolou-se em diferentes atos: uma primeira apresentação de linhas mais sóbrias e comerciais, seguida da já característica pausa performativa — elemento recorrente no universo criativo do designer — culminando numa extraordinária demonstração de alta-costura.

Foi neste último momento que as peças ultrapassaram a sua função utilitária para se afirmarem como verdadeiras obras de arte. Silhuetas escultóricas, construção irrepreensível e uma direção criativa profundamente conceptual deram origem a imagens que pertencem tanto à passerelle como às páginas de um editorial de moda ou à capa de uma revista internacional.
O que distingue Manel Baer, é a sua capacidade de criar muito mais do que roupa. Cada desfile apresenta uma narrativa sólida, onde inovação, emoção, simbolismo e complexidade coexistem de forma harmoniosa. Existe uma coerência rara entre conceito, cenografia, performance e criação, revelando um autor que pensa cada detalhe como parte de uma visão maior.
Num panorama onde a velocidade tende, muitas vezes, a sobrepor-se à profundidade, Manel Baer escolhe contar histórias. E fá-lo com uma maturidade criativa surpreendente. Se mantiver este percurso, dificilmente permanecerá durante muito mais tempo à margem dos grandes circuitos internacionais.
Apocalypsis foi, sem dúvida, um dos desfiles mais marcantes a que assisti nos últimos anos — uma prova de que a moda, quando nasce de uma visão autêntica, continua a ser uma das mais poderosas formas de expressão artística.