Texto de Hugo pinto

O primeiro dia do NOS Alive começou para mim por volta das seis. Quando cheguei, Valter Hugo Mãe estava a despedir-se do muito público no palco Literário. Fiquei espantado com tal adesão e mais ainda com o entusiasmo dos leitores presentes. Foi uma aposta ganha por Álvaro Covões.

ALABAMA_SHAKES, fotografia HUGO_MACEDO/ NOS Alive

No palco principal os The Royston Club debitam um rock batido pelo que optei pelos portugueses Neon Soho no pequeno Coreto. Há um guitarrista, um baterista e uma voz feminina, mas é a jovem da maquinaria que comanda as tropas. O som tem aquele toquezinho do glam rock dos anos 80, entre sintetizadores e bateria eletrónica. O que tem piada porque   eles ainda não eram nascidos nessa altura. É algo ingénuo, mas deu para dançar e gostei da atitude indie.

Os Alabama Shakes foram a banda que se seguiu. No palco Heineken apresentaram o country rock do sul dos Estados Unidos. Sim, tudo muito infetado pelo blues mas o som deles parece-me sempre algo rural. Não é Chicago, é Alabama. Com muito público a aderir, a vocalista Brittany Howard deu um belo concerto que parece ter seduzido toda a gente.

Depois do jantar começou a longa cerimónia de Nick Cave. Ao longo de duas horas, ele e os seus Bad Seeds, deram um concerto que dificilmente será esquecido pelos seus súbditos. No palco contei mais de dez músicos. A banda original, todos com mais de 50 anos, tem a mestria e a qualidade que a idade proporciona.

NICK_CAVE, fotografia de Matilde_Fiesch/ Nos Alive

As jovens do coro têm aqueles tons das vozes negras poderosas que muitas vezes permitiram uma rede de apoio ao esforço de Nick Cave. Foi tudo muito classy, de fato escuro e imagens exclusivamente a preto e branco. Mesmo estando longe do palco, a energia das palavras de Nick Cave era contagiante. Cave é, mais que um extraordinário escritor de canções, um poeta. Tal como Dylan, cria filmes palpáveis usando a sua lírica.

São histórias de sangue e raiva, de dor e morte, de amores desavindos em noites de má fama. É todo um universo pouco consensual porque não é pop. (Quando pela primeira vez o vi no Coliseu, há bem mais de 30 anos, vivia o seu período mais popular e ainda assim, não era pop). O som é demasiado sujo, há muita guitarra em distorção e muitas percussões barulhentas. Warren Ellis, um Gandalf pedrado que enfeitiça qualquer som, toca violino como se fosse uma guitarra demoníaca. Depois um teclado. Mais tarde vários instrumentos de corda. A sua magia tem tanta força que é impossível não haver um pacto com o diabo.

Nick Cave conduz o público como quer. Seja ao piano em momentos íntimos, seja aos gritos de braços abertos como um pregador possuído. É tudo uma força dilacerante que não deixa ninguém indiferente.

TOMORA fotografia de Matilde_Fieschi/ Nos Alive

Foi dos melhores concertos que vi nos últimos anos em festivais e deixou-me com muita vontade de o ouvir numa sala pequena. A caminho da saída, já a caminhar para as 2 da manhã, ainda pude assistir aos Tomora de Tom Rowlands, dos Chemical Brothers, e a cantora Aurora. Espetáculo muito bem cuidado cenicamente, com ele ao centro, rodeado de maquinaria e duas jovens a bailar, uma delas a tal Aurora. Imagens fortes e cores garridas. Breakbeats sujos, como seria de esperar, embora mais limpos que nos Chemical. Algo electropop dançável, giro de se ver, mais ainda de dançar. Gostei, mas a hora tardia já me pesava no corpo. E ainda só vamos no primeiro dia.