Texto de Hugo Pinto
Fotografia de Hugo Lima
O terceiro dia de Primavera Sound Porto 2026 arrancou com a rapper brasileira Duquesa no palco Primavera. A estrear-se em Portugal e sem papas na língua, a jovem poderosa deu um concerto de hip-hop rasgado e com alma. Apenas acompanhada por uma dj, que também ajudava nas rimas, Duquesa exprimiu os seus dotes de MC sem complexos. Altamente sexual, com refrões do tipo “Como fica triste com um rabo desse”, espalhou sensualidade popular e deu dicas sobre feminismo e inclusão LGBTQ+. No fim, ficaram-me alguns bons beats e muita atitude.

Mike D, o mais alto dos Beastie Boys, veio ao Porto apresentar “Thank You”, álbum com edição prevista para 28 de Agosto. Desde o fim dos Beastie Boys em 2012, (que a morte precoce de Adam Yauch aka MCA precipitou), não havia material novo desta malta e portanto havia alguma expectativa. Em palco, 3 DJs, dois guitarristas e um baixista, todos de fato vermelho da cabeça aos pés e quase todos muito novos, dois dos quais são filhos de Mike D. O som no melhor lembrava os Phantomas de Mike Patton, com aquelas guitarradas noisy e um baixo funk. Já Mike D deixou algo a desejar, não que fosse mal feito mas a milhas da frescura rítmica dos B.B.. Um hip-hop rock muito old school, onde nem faltaram samples de Kraftwerk, e um Mike D simpático com a vibe do Shaun Ryder. Deu pra saltar e pra curtir mas não me encheu as medidas.
Depois dividi-me entre Criolo, Amaro e Dino no palco Zyn e Sudan Archives no palco Primavera. Sudan Archives é uma afrofuturista de seu nome Brittney Parks. Violinista de formação, atua com temas pré-gravados aos quais acrescenta a sua voz, ocasionalmente um violino estranho, e muita coreografia. Faz uma pop negra inteligente, com muitos laivos de R&B, que funciona melhor em estúdio que ao vivo.

Dino Santiago, o algarvio mais afro que existe, atuou com o virtuoso do piano jazz brasileiro Amaro Freitas e o também brasileiro Criolo nas rimas acutilantes. Vêm apresentar o álbum homónimo, que já anda por aí a passar. Ao vivo contam ainda com uma dupla de metais, um baterista e um baixo elétrico e fazem um som muito simpático, fácil de ouvir e ainda mais de dançar. Música algo deslocada porque mais adequada a ser ouvida numa sala mais pequena, onde os detalhes contam. Muita mensagem política em palco, muita gente a sorrir na assistência, bom ambiente, cena cool.

O melhor ficou para o fim. Os Massive Attack deram um concertão! (Uma ressalva, os Massive são a banda estrangeira que mais vi ao vivo, acompanho-os desde o início e tenho por isso uma relação pessoal com este projecto). É toda uma aula de ideologia política, um manifesto anti-capitalismo, uma corrente de factos e dados estatísticos, imagens reais e internet memes mais uma posição firme face aos desfavorecidos. Daddy G e 3D nunca foram de falinhas mansas nem de aproveitamento conveniente, aqui
tudo come pela mesma medida e não é pouco. Trump=Putin=Netanyahu, mais a ganância ocidental nos metais raros do Congo, a globalização da Palantir do Peter Thiel, o Musk e a A.I. mais a obsessão com a imagem e o laxismo ignorante da atualidade.
Ninguém está a salvo.

Uma setlist com zero de festa, onde tudo o que lemos e vemos é demasiado adulto para adolescentes e demasiado sério para festivais de verão. Um espetáculo a preto e branco, com laivos de vermelho sangue, onde a mensagem é TUDO e quer-se sem distrações. A música é a mesma de há quase 3 décadas, evitando lugares comuns e singles de ocasião. Contam, como tem sido hábito, com a voz de dois amigos velhinhos: Elizabeth Frazer e Horace Andy, ambos cada vez mais debilitados.
Num festival em que tantos e tantos artistas gritaram “Free, Free Palestine”, só os Massive Attack levaram a coisa a sério.
