Texto de Hugo Pinto
Fotografias de Hugo Lima/Primavera Sound
Começou animado (e inclusivo) o Primavera Sound Porto 2026.
O quarteto Vaiapraia abriu as hostilidades com o seu punk saído do armário. Rodrigo Vaipraia, um bear cheio de atitude, faz letras divertidas e refrões orelhudos e as três jovens que o acompanham alinham num rock vigoroso. É como se os Cramps fossem tugas, assinassem pela DFA e atuassem no Pride. A atitude desleixada e descomplexada parece incomodar os mais conservadores, mas eles preferem provocar a amouchar.

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No palco Estrella Damm, a transmontana Emmy Curl esforçava-se para incluir batidinhas pop na música tradicional portuguesa. Vestida de mil e uma noites e com dotes vocais estridentes, ainda por cima com o sol alto, foi difícil animar a malta.
Perto das seis da tarde começavam no palco Zyn as britânicas The New Eves. Um quarteto de multi-instrumentistas pouco usual, com violino e violoncelo, uma baterista de pé e atitude Outlander. É muito céltico este som. Elas dançam e cantam em línguas estranhas, o violino dá aquele toque world music a puxar às ilhas e a indumentária rural da cidade ajuda a compor o quadro. Este indie folk meio pop parece ter seduzido novos públicos no Porto.

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Seguem-se dois projectos portugueses já com pouco a provar. Os PAUS vão acabar no final desta digressão. “A primeira vez que atuámos aqui foi em 2013 e hoje é a última vez que vimos ao Primavera, bem vindos ao nosso funeral”. Rock agressivo e barulhento com batidas sincopadas e algum groove. Eu sei que os membros da banda têm muitos outros projectos, nota-se até um certo cansaço, mas só eles é que fazem este som cheio em Portugal. A banda das duas baterias onde nenhuma está onde é suposto, vai deixar saudades.
Mais tarde no palco Vodafone eram os Sensible Soccers e as suas muitas máquinas que arrepiaram caminho. Fazem música eletrónica cada vez menos orgânica e metem a dançar toda a gente. É curioso como a ausência de voz só acrescenta à mood descontraída que eles pretendem. Os três maquinistas atuaram com um baterista, um baixo elétrico e ocasionalmente uma guitarra. A formação foi mudando ao longo dos anos, mas este som cheio de groove mantém-se quase igual. E ainda bem. Quase a jogar em casa, entre drum pads e moduladores, os Sensible Soccers deram um belo concerto.
Depois de jantar começava no palco principal os Big Thief. A banda de Adrianne Lenker e companhia debitou o seu folk-rock com profissionalismo e mestria. Aquele “Americana”, o género de música e o sotaque, doce e tranquilo. Com uma legião de fãs considerável, deram um concerto sólido e sem grandes surpresas.

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Já se caminhava para a meia-noite quando uma multidão recebeu os The XX de braços abertos. A mesma indie pop sensível, que sempre os caracterizou, agradou a velhos e novos. Cantou-se os hinos, dançou-se um pouco e fez-se a festa. Nota para o espectáculo monocromático de raro bom gosto. Com a melancolia do trip-hop mas com o som dos Indies de final da primeira década, os The XX estão de volta e a malta agradece.
O melhor estava guardado para o fim: Os irlandeses Kneecap deram o melhor concerto no primeiro dia do Primavera Sound Porto 2026. Trio de hip-hop clássico, (one dj and two mcs), em pico de forma, com disco novo a rebentar, os Kneecap estão em todo o lado. Das salas de cinema no festival de Sundance, aos talkshows americanos, de polémicas nos festivais britânicos, ao magnífico álbum “Fenian”, não há como escapar a esta irreverência. Como se poderia esperar, têm tanto de consciência política como de politicamente incorretos. Numa noite em que várias bandas se manifestaram pela causa palestiniana, ninguém foi tão explícito como estes putos de Belfast. Entre mensagens anti-colonialistas e fotografias explicitamente anti-americanas, os Kneecap esfregam na nossa cara ideias como murros, sem desculpas nem paninhos quentes. O punk faz-se assim, sem guitarras e com drum and bass quebrado, com rimas duras e atitude firme. Musicalmente os beats são meticulosamente aparados, os samples escolhidos a dedo, o ritmo é contagiante e o resultado final é a multidão a saltar porque ninguém consegue ficar parado. Mesmo quando cantam em gaélico e ninguém percebe o que se passa, mesmo quando o grafismo e o vídeo ajudam na tradução, mesmo com palavrões e angry teen attitude, é impossível não ficar tocado pela energia desta malta.

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Cenicamente foram irrepreensíveis, quer no cuidado gráfico, quer no timing, quer na palete cores e indumentária. Tudo profundamente contemporâneo, cheinho de bom gosto, atual e inteligente. Numa altura em que tanto nos queixamos do excesso de formatação e da shitificação da sociedade contemporânea, há que louvar a genuinidade dos Kneecap.
Que belo modo de acabar o primeiro dia: Suado de saltar e rouco de gritar.