Texto Hugo Pinto

Entre 15 e 16 de maio, no Festival Causa Efeito houve música naquela fronteira do jazz onde a improvisação se impõe naturalmente. Durante o dia , os concertos aconteceram na Sala de Esgrima, alguns dos quais altamente recomendáveis, mas que infelizmente não tive oportunidade de assistir.

Steve Swell & Tracy Lisk

Já durante a noite, no Pátio do Campus da Universidade Nova, pude assistir gratuitamente a dois concertos por noite. O público parecia-me pouco, mas entendido, o que permitia conversas animadas e quezílias interessantes antes, depois e nos intervalos das sessões.

Na sexta-feira arrancou a noite com o dúo de Steve Swell no trombone e Tracy Lisk na bateria. Ele é um histórico da cena free de Nova Iorque, ela é uma percussionista/baterista americana com formação nas percussões brasileiras. O concerto foi… intenso. Ele, um senhor dos seus setenta e poucos anos, nunca se cansou de extrair do seu trombone emoções surpreendentes. São lugares pouco comuns onde a gestão de silêncios é meticulosa. Ela, numa bateria estranha porque parecia artesanal, desmultiplicou-se em ritmos e tic-tacs, mais intencionais na delicadeza que violentos à força. Em ambos se nota a atenção e a cumplicidade na partilha de uma linguagem muito própria.

Ada Rave

Seguiu-se o trio de Brad Jones. Ele no contrabaixo, John O’Gallagher no saxofone alto e o tuga João Pereira na bateria. Tocaram um jazz a galope, rasgadinho e tecnicamente evoluído, que fez as delícias do público presente. Um jazz que já nada tem de bebop, com o sax mais próximo de Steve Coleman por exemplo.Foi animado o concerto, mas a espaços deixou-me aquele gosto amargo da previsibilidade. Destaque para João Pereira que, sem nacionalismos bacocos, esteve sempre acutilante nas intervenções e solto nos solos.

No sábado arrancou a noite com a percussionista portuguesa Sofia Borges em dueto com o sax tenor da argentina Ada Rave. Ambas radicadas em Amsterdam, onde se conheceram e têm tocado juntas. São mulheres de força que fazem um free jazz onde está sempre a acontecer muita coisa. Como é habitual no Causa Efeito, música para este momento e que só existe AGORA. Há intensidade e muita alma, “me gusta”. Terminam o concerto com um tema de um disco que só vai sair em Outubro. É um som muito fora, despreconceituoso, liberto e desenraizado. Começa bonito, com ar, o sax a dominar, quase a falar conosco, sem dramas… Depois começa o diálogo entre elas e nota-se a cumplicidade. É bom isto. Abre-nos a cabeça e leva-nos a sítios que desconhecíamos.

Ziv Taubenfeld-Wibert DeJoode-Sun-Mi Hong

Termina o Causa Efeito 2026 com Ziv Taubenfeld no clarinete baixo, Wilbert de Joode no contrabaixo e Sun-Mi Hong na bateria. Um trio dinâmico, rijo, com poucos floreados, mas nem por isso muito seco. Som denso e desconstruído, com um clarinetista mais dedicado a fazer-nos sentir que a demonstrar técnica. Um baixo adulto, tantas vezes com arco, onde cada nota conta e está presente. A baterista destaca-se por uma técnica algo arrojada, onde o sentido de (do?) tempo impressiona. Há um momento intenso e marcante onde o baixista bate com o arco nas cordas e a bateria voa… O baixo junta-se e durante uns minutos tudo acontece. Ali. Naquele momento. Único e irrepetível. Imprevisível. A música fresca tem destas coisas.

Brad Jones Trio

Antes de terminar, Ada Reeve, saxofonista do último duo, juntou-se a este trio e a coisa deu-se. Que coisa? Uma espécie de happening. Um magic moment de elevada improvisação. And the sky? Its full of stars. Tal como disse Ziv Taubenfeld, “que estes acontecimentos possam durar para sempre”.

O Causa Efeito mantém uma programação eclética de altíssima qualidade, apresentando propostas únicas em música que desperta a curiosidade. Parabéns e até para o ano!