Texto por Carla Carbone
Um dos mais belos pensamentos sobre a natureza pertence a Kant. O Belo artístico é desinteressado; o Belo natural, para o filósofo, surge associado à prática do bem, ou da moral.

É Leonel Ribeiro dos Santos1 que nos recorda Kant, e a função estética da natureza: a capacidade de despertar, em todos, o dever de respeitar a natureza. A preocupação do filósofo era notória: proteger as espécies.
A beleza da natureza é responsável por essa admiração, e fruição interessada.
Na história da arte foi preciso existir o romantismo para, precisamente, dar-se a atenção pelas coisas da natureza. Muitas vezes reminiscências do naturalismo medieval, como as ruínas, ou os jardins românticos.
Poderíamos percorrer as artes do princípio deste milénio, que abrem caminho para uma atenção redobrada sobre a beleza natural. Uma adoração passiva, contemplativa. Uma devoção idealista e antiga pela natureza morta, pelas vanitas, talvez. Mas é na praticabilidade, na acção do real, que o naturalismo artístico parece evoluir e expandir-se.

Várias belas artes convergem agora, no sentido de um certo realismo. Um realismo eco-responsável, comprometido com a dimensão social, atento à ideia de ética, e bem-estar colectivo. A arquitectura, o design, a música, a degustação, longe de um individualismo, articulam-se. Debruçam-se sobre a candura das espécies naturais. As novas gerações, mais do que uma fruição da natureza, procuram consciencializar sobre a emergência na protecção do ambiente. Fazem dessa experiencia, e proximidade com a natureza, uma forma de vida. Homem e natureza, integram-se numa comunidade biótica plena, não como opositores, mas antes como aliados na preservação do ecossistema.
No dia 26 de Julho de 2025, foi apresentado, no CAM-Centro de Arte Moderna Gulbenkian, uma programação dedicada à Arte, à Ciência e à Ecologia com curadoria e programação de Inês Valle. No auditório Estúdio, realizou-se um conjunto de conversas também organizadas pela curadora: “Futuros Líquidos: Arte, Design, Natureza” e “Paisagens Sonoras”. Os temas principais gravitaram em torno de um design sustentável, dos biomateriais, do som, e do futuro das zonas costeiras urbanas.

A primeira conversa, moderada pelo arquitecto Rafael Calado, coordenador do BioLab de Lisboa, contou com a presença dos arquitectos suíços Jeremy Morris e Luca Carlisle (colectivo Fahrenheit 180º)2, e consistiu na apresentação do projecto ecológico “À Flor do Azulejo, a Cor do Tejo“, inspirado nos azulejos tradicionais portugueses. O projecto, integrado num outro, mais amplo, “Bauhaus of the Sea Sails”, este focado no diálogo entre a atividade humana urbana e os mares e oceanos, propõe, mais do que uma resposta estética, uma miríade de soluções sustentáveis: o desenvolvimento de biomateriais, oriundos da recolha de resíduos naturais marinhos, como algas (alginato), e conchas de bivalves (ostras portuguesas).
Os arquitectos e designers Morris e Carlisle procederam a uma transformação destes biomateriais, tendo como mote a preservação do ambiente, da cultura, da memória e da relação com o rio Tejo.
Como resultado, os arquitectos suíços desenvolveram peças de “mobiliário” que ocuparam o espaço do novo jardim do CAM Gulbenkian. A exposição, “À Flor do Azulejo, a Cor do Tejo”, compreendeu protótipos de uma cozinha modular3, peças (mesas) desenhadas em estrutura de metal e cobertas, na superfície, por bio-azulejos de cor azul de mar. A composição dos azulejos, compreendida por um aglomerado de conchas de ostra trituradas, alginato, e diversos pigmentos, oferece uma variedade de aplicações e possibilidades que reforçam a interacção do homem com a natureza, de forma sustentável, assim como exaltam o poder regenerativo dos materiais, na construção e nas cidades.
O projecto de Morris e Carlisle também salientou a importância do reforço da relação dos lisboetas com o rio Tejo, onde, antes da poluição dos estuários, a produção da ostra era das mais importantes da Europa.
Posteriormente, “Paisagens Sonoras”, a segunda das conversas, teve como moderadora Raquel Castro, diretora do Festival Lisboa Soa, e contou com a presença das artistas Nandita Kumar (Índia), e Francisca Rocha Gonçalves (Portugal).

A conversa constituiu, na generalidade, numa reflexão em torno do impacto humano sobre a paisagem sonora natural. As artistas, na sua prática artística, utilizam o som como meio de suporte para o desenvolvimento de projectos ecológicos sustentáveis.
Nandita Kumar apresentou o projecto digital OsmoScape: Echoes of the Osmotic Landscape, uma página sensorial, que pretende sensibilizar o visitante, para as questões da preservação da natureza, da água e do mar. Kumar, em OsmoScape, desenvolveu uma intricada rede de imagens e de sons que o visitante pode explorar, e criar as suas próprias composições sonoras.
Francisca Rocha Gonçalves falou sobre o seu projeto Interferências no Tejo (2024-2025)4, uma instalação sonora que foi concebida para a Sala de Som do CAM5. O projeto compreendeu, com o recurso a hidrofones, a uma investigação e recolha de sons existentes no rio Tejo, numa escuta profunda e exaustiva da vida marinha. O projecto realizou-se em várias expedições, na companhia de cientistas da Fish Bioacoustics Lab (Clara Amorim e Manuel Vieira). O projeto resultou de uma residência artística de Rocha Gonçalves, no Aquário Vasco da Gama, Município de Oeiras, e também no âmbito do projeto europeu “Bauhaus of the Sea Sails”6.

Outro dos pontos-chave referidos, na conversa entre as artistas, é o modo como as artes, de forma educativa, conseguem promover a aproximação dos indivíduos à natureza, e desenvolver, nos mesmos, uma consciência ambiental.
No seguimento das conversas, os presentes foram convidados a assistir a vários eventos artísticos no Jardim da Gulbenkian. Teve lugar uma degustação memorável, do projecto gastrónomico “Boca do Estuário”, concebido pela Chef e bióloga Joana Duarte. O projecto teve a colaboração da Mesa do CAM, e consistiu num menú regenerativo que, de uma forma consciente e criativa, uniu histórias e sabores dos territórios de Marvila e Oeiras. Houve também a oportunidade de provar várias iguarias, salgadas e doces, com ingredientes biológicos, como cereais resistentes à seca (sorgo e chícharo), peixes invasores (corvinata), ostras, e algas oriundas da costa portuguesa.

A tarde terminou, na Engawa do CAM, com uma live performance, “Rádio Bugio”7, dos artistas, Diana Policarpo e Bernardo Gaeiras. Protegidos pela bela cobertura do arquitecto Kengo Kuma, ofereceram, aos presentes, uma experiência sensorial rica de composições bioacústicas criadas ao vivo. As composições resultaram de um conjunto de gravações que os artistas recolheram em contextos marinhos e subaquáticos da ilha-farol do Bugio, em Oeiras.
Viveram-se, neste dia de verão, entre o edifício do CAM e os jardins da Gulbenkian, momentos de encontros. Partilhas e reflexões relevantes marcaram o ritmo de um programa dedicado às relações possíveis entre o ser humano e a Natureza. Foi um dia de escuta, diálogos e troca de ideias, onde o pensamento e experiência se cruzaram de forma enriquecedora, e lançaram pistas para um futuro regenerador e mais sustentável.
1 Santos, L. R. (2012) Kant e a ideia de uma poética da natureza. edição Kelly Benoudis Basílio e Felipe Cammaert. Naturalismos, de Lucrécio a Lobo Antunes. Edições Humus. Pág. 112-127
2 (https://gulbenkian.pt/agenda/fahrenheit-180-a-flor-do-azulejo-a-cor-do-tejo/)
3 Oyster Alchemy [Alquimia das Ostras]. Área de trabalho compreendida por um fogão a gás, um lavatório e uma mesa linear coberta de azulejos produzidos a partir do desperdício de conchas de ostras e pigmentos existentes ao longo do Rio Tejo.
4 https://gulbenkian.pt/cam/agenda/francisca-rocha-goncalves-interferencias-no-tejo/),
5 O projeto Interferências no Tejo (2024-2025) teve curadoria de Inês Valle (22 de fevereiro a 19 de Maio 2025).
7 (https://gulbenkian.pt/agenda/radio-bugio-por-diana-policarpo-e-bernardo-gaeiras/).