Os discos do irmão do Nuno

Alguma coisa haverá que nos torne melómanos.

Texto por Hugo Pinto *

Alguém que ouve música compulsivamente mas incapaz de ligar o rádio sem se preocupar com a estação, que ama e detesta bandas com a mesma intensidade, que não resiste a uma discussão apaixonada sobre um qualquer álbum ou género de música. Ser esquisitinho com qualquer coisa torna-nos melhores.

Há um prazer metafísico no momento que apreciamos. Algo profundo. Só nosso. Já para os outros acrescenta interesse. Há sempre assunto com um amante de. Alguma coisa haverá que nos faça preferir a música em vez de qualquer outro hábito. Ficar boquiaberto com um tema na primeira vez que o ouvimos. Fascinado. Como um apreciador saboreia aquele tinto pela primeira vez. Ou um outro, quando se abriu um capot e viu o motor de um Datsun 1200.

Há quem tenha uma família que induziu um qualquer saber que levou mais tarde a uma mania nossa. Um tio que ensina a desmontar um rádio ou uma irmã que nos leva a um outro cinema, chamando desde cedo a atenção para determinados detalhes, suscitando curiosidade. Esta visão raramente se coaduna com o pessoal lá da rua.

No bairro, cada um fazia pelos seus interesses porque os pais estavam demasiado ocupados a trabalhar. Além disso, aquela geração não era pródiga a partilhar sentimentos. A honrosa excepção era o futebol, aí sim a influência de pais e familiares próximos era avassaladora. Na música, foi um feliz acaso que me permitiu fazer o meu caminho, idiossincraticamente.

O Nuno calhou na minha turma do primeiro ano, agora quinto ano.

Morávamos perto e o meu avô levava-nos de carro para a preparatória a caminho do trabalho. Quando dava, ainda nos trazia a almoçar a casa. O Nuno tem um irmão uns 10 anos mais velho que nós. Ele faz parte daquela geração que, na adolescência, viu os Clash e os Genesis em Portugal. Estou a falar de finais dos 70, início dos 80. Em meados dos anos 80, o irmão do Nuno era, para mim, uma personagem meio mítica: Trabalhava em computadores, algo estranhíssimo para a época.

Além disso, embora fosse várias vezes a casa do Nuno jogar Subbuteo ou Pong, raramente o vía.

Lembro-me vagamente dele ter casado cedo com uma hippie, ou pelo menos era assim que eu a via, e de ter ido viver para a Nazaré.

Mas o Nuno ficou com os LPs dele em casa e aí é que estava o ouro. Imaginem, têm 14 anos e não havia internet. No quarto de um adolescente ainda não há um computador mas sempre houve uma secretária. Entalado algures entre a cama, o guarda-fato e a uma estante de livros e brinquedos, está um móvel vertical, de contraplacado escuro, com uma porta de vidro que invariavelmente se partia. Quase sempre tinha rodas, embora eu nunca tivesse visto nenhum a mexer. Era a aparelhagem. No topo estava um gira-discos. Depois um amplificador, um rádio e um leitor de cassetes. O gira-discos tinha uma tampa de plástico transparente que raramente se fechava enquanto se metia um vinil a rodar.

O amplificador permitia escolher entre “Phono, Tape, Turner, Aux..”. São palavras gravadas a chumbo na memória. Além disso, o amplificador tinha o gordo botão do volume, aquele que mais se rodava. Seja porque nem todos os discos têm o mesmo volume, seja porque o volume depende da hora e da companhia, seja porque quando os pais entravam no quarto, o volume descia automaticamente. O rádio permitia guardar entre 5 a 10 estações, no máximo. No meu caso era um “écran” a led, verde. O leitor de cassetes dava para gravar a partir do rádio e do gira-discos, desde que os níveis jamais chegassem ao segundo vermelho (I know, wtf?!).

Na versão quitada, continha dois leitores de cassete e permitia fazer cópias de cassete para cassete. Às vezes havia um equalizador separado, que embora fosse de utilidade duvidosa, dava sempre um ar sofisticado e estiloso à coisa.No fim, junto ao chão, havia um espaço para guardar os vinis.

Cabiam uns 60 vinis ali, mais ou menos. Havia sempre álbuns duplos. As aparelhagens eram todas Sony e Pioneer, Phillips e Sanyo. E eram um mundo de possibilidades.

Antes de ter descoberto os programas de rádio e o Blitz, antes de começar no meu próprio caminho com a new wave, antes dos amigos nos infectarem com os seus gostos, antes de tudo isso, houve as dezenas de cassetes que gravei dos LPs do irmão do Nuno. Aqueles discos permitiram-me caminhar. Suscitaram-me a tal curiosidade.

A primeira música interessante que ouvi veio daqueles álbuns. Descobri o Reggae com o Marley, mais os Doors e os Pink Floyd, os Police e os Dexys Midnight Runners, Led Zeppelin e Paco de Lucia. Havia rock sinfónico, prog e fusão. E havia o punk. (The Clash are the only band that matters).Tudo misturado, tudo ouvido muitas vezes do início ao fim, porque não havia mais nada.

Gravava-se um disco no lado A de uma cassete e outro diferente no lado B.A capa eram os alinhamentos dos álbuns. Muitas vezes, na frente de cada tema, uma série de 3 dígitos, indexados “à-la-pata”, indicava em rotação, entre 000 e 999, onde começava aquela música. Este processo, que tem tanto de arcaico como de trabalhoso, era quase sempre inútil, e a importância que lhe dávamos era romanticamente pueril.Na lombada, o nome da banda e dos álbuns era essencial. Quase tudo a caneta bic.

E gastava-se muito dinheiro em cassetes. BASF eram baratas, TDK mais caras. Crómio era um luxo pouco adequado a quem vinha do bairro. As cassetes íam para todo o lado connosco. Começavam a rodar na aparelhagem do quarto, depois seguiam-nos para a escola no walkman. Quando havia viagens, tocavam no carro, quando se chegava à praia, passavam para o tijolo.Rodavam muito e ainda se trocavam, durante uns tempos, com os amigos. Num grupo restrito, não havia grande necessidade de todos termos os mesmos discos. Cada um gravava o que mais gostava, consoante as suas possibilidades em cassetes.

Os discos do irmão do Nuno acompanharam o secundário. Mesmo quando já fazia as minhas escolhas, mesmo quando o CD apareceu, aqueles primeiros álbuns ouviam-se sempre. À distância, pergunto-me quão diferente teria sido este caminho se lá tivesse havido Marvin Gaye ou Aretha Franklin, James Brown ou Sly and the Family Stone. Mas mas não havia, ou eu não dei por ela, e a vida continuou.Tenho outro amigo do mesmo grupo, que pouco mais tarde, num dos discos do irmão do Nuno, descobriu o Jazz e por lá ficou até hoje.

O irmão do Nuno foi a primeira pessoa importante na minha educação musical. Não porque o tenha conhecido quando era jovem mas porque, quando casou, deixou os seus LPs em casa do Nuno.

O irmão do Nuno chama-se Vitor e entretanto tornou-se amigo.

(Excerto de pré-edição de “Audiobiografia”, H. Pinto, 2028).

Texto publicado em PARQ_82.pdf