Vivienne Westwood

texto por Francisco Vaz Fernandes

Vivienne Westwood, enquanto cidadã britânica e criadora de moda, foi sempre uma carta fora do baralho. No essencial, desconfiava da sua própria contemporaneidade, de uma mentalidade burguesa vigente, o que a levava a um pensamento alternativo e a um percurso na moda muito próprio, como podemos descobrir na pequena exposição ontológica que o MUDE lhe dedica.

MUDE. Exposição Vivienne Westwood O Salto da Tigresa. Curadoria Anabela Becho. Lisboa 12 Maio 2025 © Luisa Ferreira

Vivienne Westwood , o Salto da Tigresa, comissariado por Anabela Becho, surge no contexto de um programa geral do MUDE que tem como principio orientador a questão das identidades do qual, evidentemente a criadora britânica, elemento do movimento punk, era um nome que imediatamente se impôs. Ajudava, segunda a curadora, que fosse uma das criadoras mais bem representada nas coleções do museu que têm em arquivo peças dedesfile da criadora, até peças mais antigas, referentes aos primeiros passos, ligadas a estética punk em que assinava com Malcon McLaren, seu companheiro na época. Por outro lado, para a curadora, a obra de Westwood oferecia o pretexto de um percurso pela própria história da moda a partir de um revisionismo histórico que a criadora britânica trouxe para o centro das suas criações. Nesse sentido, a curadoria cria contextos entre a obra da criadora com outros registos históricos levando o público a quadros de evolução da moda desde do sec XVIII.

MUDE, Colecção Francisco Capelo, Entreposto, Lisboa 26 Janeiro 2015. © Luisa Ferreira

Com essas perspectivas históricistas, Westwood procurou confrontar os seus contemporâneos com memórias em geral muito curtas , propondo um pensamento elíptico que trazia para a atualidade estilos e modas de outras épocas, algumas de séculos passados, com formas de estar e de pensar diferentes e que evidentemente reequacionavam e questionavam o sentido de um pensamento único e linear da modernidade.

Ou seja, como bem compreendia nada é original, por mais novo que parecesse. Westwwod pensa o tempo como uma grande elipse onde tudo se repete e onde as raízes tem uma profundidade as vezes insuspeita. Pegando nessa referência, Anabela Becho procura que as peças de Viviennes Westwood, apareçam ao lado de peças históricas para melhor compreender como os modelos do passado influenciaram e explicam certas opções da criadora inglesa. Para isso o MUDE contou com a colaboração do Museu do Traje, da Fundação Gulbenkian e até de colecionadores particulares para melhor documentar esses aspetos históricos que influenciavam a sua produção.

MUDE. Exposição Vivienne Westwood O Salto da Tigresa. Curadoria Anabela Becho. Lisboa 12 Maio 2025 © Luisa Ferreira

Ao todo, são 45 peças expostas. No início do percurso encontramos dois manequins, um expondo um coordenado fashion show, Vivienne Westwood, da coleção piratas que faz referência à tela, Jangada de Medusa de Delacroix.

O outro manequim, veste uma peça do sec XIX, de produção nacional. Em ambas há uma abordagem ao uso da crinolina, de como era usada na época do seu auge e de como foi interpretada por Vivienne Westwood. Par Anabela Becho, começar com estas duas peças fez muito sentido porque as crinolinas que muito influenciaram a criadora inglesa marcam também um período em que a alta costura se afirma em Paris. A moda passa a ser entendida como disciplina criativa, onde passamos a ter um criador que coloca numa etiqueta com a sua assinatura, ganhando o estatuto de arte. Westwood não procura reproduzir mas manter o espírito com soluções inovadoras para estendem os seus próprios limites.

MUDE. Exposição Vivienne Westwood O Salto da Tigresa. Curadoria Anabela Becho. Lisboa 12 Maio 2025 © Luisa Ferreira

A demonstração do seu interesse histórico pela moda continua ao longo da exposição, sendo propostos vários núcleos em que coordenados e acessórios originais da criadora aparecem ao lado de peças históricas . Alguns núcleos receberam os títulos de algumas das suas coleções emblemáticas como por exemplo, Vive La Cocotte ou Anglomania, momento em que o tartã escocês ganha destaque e passa a ser elemento identitário da criadora. Westwood ao dar visibilidade, ajudou que o tartã entrasse na linguagem da moda universal, tal como podemos ver num coordenado de Comme des Garçons, também exposto e pertencente ao MUDE, .

Esta exposição oferece uma oportunidade de conhecer a extensão de um núcleo representativo da coleção do MUDE. Podemos encontrar t-shirts da sua fase punk, provocativas com suásticas impressas, anteriores ao momento em que começa a pensar em coleções para desfiles. Há bastantes peças do seu primeiro desfile em Londres em que assina com Malcolm McLaren, seu companheiro sentimental, na época. Há ainda peças emblemáticas de desfiles em Paris numa fase em que o seu nome se torna mais mediático e globalizado. Ou seja, uma coleção que permite uma exposição que percorre várias etapas da carreira da criadora , daí a relevância desta exposição e desse núcleo que pertence ao MUDE.

MUDE. Exposição Vivienne Westwood O Salto da Tigresa. Curadoria Anabela Becho. Lisboa 12 Maio 2025 © Luisa Ferreira

É ainda de referir que a exposição ganha muito com a cenografia de Luís Miguel Saraiva, o arquiteto responsável pela renovação do espaço do MUDE. Pensando para o espaço que foi a caixa forte da antigo Banco Ultramarino Português, dominado pela cor metálica dos cofres, Luís Miguel Saraiva opta por uma aproximação cromática, algo minimal criando estruturas expositivas igualmente metálicas algumas com caixas de plexiglass. Elegante e pouco impositivo permite que os coordenados expostos brilhem.

Museu do Design

Rua Augusta, 24. 1100-053 LISBOA

EXPOSIÇÃO TEMPORÁRIA

GALERIA A / Piso -1

3ª a 5ª feira: 10h-19h; 6º e Sábado: 10h-21h Domingo: 10h-19h

ate 12 de Outubro