Lisboa volta a manifestar-se como grande centro de produção de design, e a Lisbon Design Week torna-se o elemento aglutinador de toda a comunidade que durante cinco dias mostra e festeja a sua criatividade. Portugal tem conseguido atrair criadores estrangeiros que aqui produzem beneficiando de uma atmosfera especial, onde escala humana e as tradições são postas em valor.

Liliana Silva da Terrakota, no Hotel Locke Santa Joana

Trata-se da terceira edição da Lisbon Design Week e de 28 de maio a 1 de junho podemos percorrer 95 espaços, entre museus, galerias, estúdios e lojas com projetos de 250 criativos. O evento acontece um pouco por todo o centro de Lisboa sendo que este ano estendeu-se também ao Bairro da Ajuda/Belém e ao bairro de Marvila/beato, para além dos outros que se repetem: – Santos/Lapa, São Bento/Estrela, Campo de Ourique, Príncipe Real, Chiado, Baixa e Av. da Liberdade. Na impossibilidade de ver tudo é aconselhável consultar o mapa disponível online e picar o que pode ser mais interessante ou então apostar tudo num só bairro. O site da Lisbon Design Week consegue propor trajetos para cada bairro envolvido dando perspetivas do tempo de duração para que o visitante despender, para que se possa melhor programar.

Loulé Criativa

Nestes cindo dias podemos encontrar lançamentos de novos produtos que encontram neste evento o palco ideal. Desde a primeira edição tem havido um terreno propício para designers, artistas e artesãos criarem pontes , colocando as tradições e técnicas manuais em destaque. Para além de exposições temáticas comissariadas por designers esta edição também trás visitas a ateliers de artistas. Há ainda algumas palestras sobre temáticas pertinentes na área do design. Mais uma vez é uma questão de consultar o siteo onde de forma sucinta pode ver onde acontece em cada evento.

Alguns destaques

O Hotel Locke Santa Joana – Na zona do Marquês, o Hotel Locke Santa Joana tem sido o ponto de encontro da Lisbon Design Week. O ponto de partida com apresentação a imprensa aconteceu nesse hotel que também recebe palestras e algumas exposições. O próprio hotel já tem uma grande coleção de peças de designers portugueses que se encontram expostas em algumas áreas comuns. Nesta edição, o hotel mostra num pátio ao ar livre um conjunto de peças cerâmicas de Liliana Silva da Terrakota que se distinguem pela cor e dimensão. São peças desenvolvidas partir de modelos vernaculares reconvertidos . Mariana Ralo cria a sua maior tapeçaria de sempre, pensada para a escala do local. É uma obra realizada a partir de materiais têxteis reciclados com tons a pensar na parceria com as peças da Terrakota.

Rubén Silva no MUDE (Open Call)

Num outro espaço, o Locke Santa Joana recebe uma exposição que assinala 10 anos da Loulé Criativa. Com curadoria Henrique Ralheta , “Cabeças Feitas” mostra 50 artistas locais dos 25 aos 89 anos que pensaram no cabeçudo como tampa de pequenos potes de cerâmica. É uma exposição muito bem apresentada onde cultura popular e design mais contemporâneo vibram lado a lado.

A sala museológica do hotel que reúne achados encontrados durante as obras do hotel foi ocupada por dias obras da AB+ AC Architects. São peças em ferro com alguma solenidade, pensadas como suportes de velas. os volumes verticais em ferro ou cera criam um jogo interessante.

Diogo Couto no MUDE (Open Call)

Open Call – Trata-se de uma exposição que decorrer no MUDE e que reúne 20 jovens designers a partir de um processo de seleção de um júri. Concorreram cerca de 150 projetos e segundo os curadores fazia sentido trazer jovens designers para um evento como Lisbon Design Week numa perspetiva de desenvolver o dialogo intergeracional. Trazer as peças de jovens criadores para dentro da exposição do coleção do MUDE também parece um olhar comprometido e de suporte aos jovens valores. Sendo o MUDE uma infraestrutura cultural de representatividade cidade, procurou-se enquadrar os projetos selecionados na cenografia do museu criando relações com peças históricas que fazem parte da identidade do design português. O banco de Rúben Silva é dos projetos selecionados aquele que ganha mais com a integração na coleção do museu. Junto a um núcleo de peças Deco, rapidamente percebemos importância dessa herança nas propostas deste jovem designer. O banco de Diogo Couto é outro bom exemplo de integração. Desta vez, um banco alto, quase minimal encontra uma relação menos expectável com peças pós-modernistas.

Noémia Zancuoghi no Espaço Roca

O Ecoar da Matéria Prima – Acontece no espaço Roca nos Restauradores. A exposição comissariada por Wesley Sacardi não se cinge ao espaço da galeria no último andar, como era costume. Os projetos estendem-se por todo edifício, procurando uma naturalidade como se ali estivessem desde sempre. Todos os artistas envolvidos trabalham com matérias recicladas. Noémia Zancuoghi da Braida Studio apresenta dois murais de grandes dimensões que resultam de recolhas de fios ligadas à faina marítima. Parte da experiência do macramé para a realização de peças mais minimais com um design mais sóbrio

Wesley Sacardi no espaço Roca

Uma das peças mais curiosas pertence a Wesley Sacardi. Uma forma tubular disforme criada a partir de pasta de papel reciclado e serradura torna-se num amplificador de som para um telemóvel. O interessante dessa peça é aspeto pouco high-tech, a falta de portabilidade o que faz dele algo desadequado. Contudo é uma peça que parece uma escultura onde prevalece um sentido poético e lírico.

Perspectives of Belonging, na Galeria do Novo Banco

Perspectives of Belonging – Alanna Nichelle, Justine Murniece e João Rosas são os curadores deste projeto que procura a partir de uma seleção de fotografias da coleção do Novo Banco criar relações com peças de jovens designers. Apesar das dificuldades que o espaço pode representar, a equipa de curadores não se cingiu às peças mais emblemáticas e prestigiadas da coleção , procurando obras que inscrevem temas com uma carga política, o que leva também a olhar as peças de design selecionadas de outra forma.

Há muitas outras exposições que vamos procurar ver. Estamos curiosos com pequena retrospetiva que Marco Sousa Santos cria sobre o seu próprio percurso exposto na Branca Lisboa, na Rua Filipe Folque. Na Casa do Jardim de Estrela temos uma coletiva proposta por Diana Vieira da Silva que se debruça sobre o tempo de fazer e na Made in Situ apresenta-se o último projeto de Noé Duchaufour-Lawrence criado a partir do xisto. O espaço do arquivo Aires Mateus em Campo de Ourique recebe “Sobre Mesa” com curadoria da Mut Design e João Xara que apresentam projetos de jovens designers espanhóis e portugueses.

Mariana Ralo