Texto de: Tatá Seixo Garrucho

Do Baile ao Noise, do Techno ao Funk e à Cumbia digital, o álbum de compilação, que reúne 25 artistas, redefine a música de club do sul global.

Capa de Cerol 25

TroubleMaker Records, label criada por Phoebe em 2018 e atualmente liderada por Gadutra e Vitor, entre Lisboa, Berlim e o Rio de Janeiro, tem como missão amplificar talentos dissidentes na música eletrónica. Após o lançamento de 001_RESISTANCE em 2020 a editora regressa com CEROL 25, a sua segunda compilação – um manifesto sonoro que se recusa a ser suavizado ou domesticado.

Gadutra & DJ Weed

Como define o comunicado de imprensa: “Cerol é uma substância feita de vidro moído e cola que jovens do Brasil usam para passar nas linhas de suas pipas. Esse elemento cria toda a tensão dos cruzamentos no ar. Guerras e rabiólas, diversão e perigo, às vezes até mortes. Essa experiência  ronda nossa vivência do dia-a-dia.” Assim também é esta compilação: dançante, cortante e necessária. CEROL 25 é resistência em estado sonoro e bruto. Cada artista traz o seu próprio cerol, a sua própria forma de cortar, moldando um álbum que é tão forte quanto envolvente, reunindo funk, dembow, techno e batidas experimentais – sem medo.

C0linas & Ruido con H

“I’d say that my track is a blend of my cultural background and the way it impacted me. From Congo, Brasil, France & UK Rave scene… This track was born from my fragmented psyche, which as a causality inherited a certain unpredictability.” conta C0linas, sobre sua faixa ‘Free of Avidya’. 

Às artistas, pergunta-se: “Por que nossa cultura e música são a nova moda na Europa, mas nós não?” Ao que respondem: “A melhor ferramenta que temos para essa contra resposta é nosso talento – infindável e riquíssimo culturalmente, por isso continuamos a produzir música de qualidade e carregada de personalidade para o mundo todo. A grande diferença é que ainda vivemos essas experiências cantadas/expressadas nos nosso dia-a-dia.”

Idlibra & Gabnaja

Na voz de JD Lain de Madureira, “os artistas, produtores e DJs continuarão a integrar ritmos tradicionais, como cumbia, reggaeton com batidas eletrônicas, criando subgêneros híbridos. Eu só torço que as músicas soem cada vez menos padronizadas e inofensivas.”

A sua vivência é o seu valor.

Maitech reflete sobre a sua faixa: “a psicodelia, há anos presente na minha jornada musical, é capaz de transportar sensações e criar atmosferas imersivas. Tentando cada vez mais fundir ritmos latinoamericos com grooves inspirados no trance e psy, sempre busco explorar novas texturas sonoras nas minhas tracks, criando uma experiência que seja tanto energética quanto hipnótica. Piscilocibina Wikipedia Page é uma ideia que tive trilhando na roça: por que não misturar percussões latinas, baixos distorcidos, ambientações agudas e um vocal lendo uma página da internet?” 

Cada artista teve sua própria motivação para produção de sua música:

DJ Licinha diz que “desde muito pequena sempre ouvi funk, desde muito pequena sempre fui considerada ‘nerd’ e também sempre gostei de música extrema, quando cresci percebi que não curtia muito seguir as regras impostas do que era ‘musica certa’ e como Licinha eu busco ir ao extremo do funk representando o lado experimental, e também a pessoa”.

Mílian Dolla & Maribell

Maribell, dj e produtora angolana sedeada em Lisboa, considera que “a música electrónica latina está num momento de expansão incrível, onde cada vez mais produtores estão a dissolver barreiras e afirmar a sua identidade. Vejo um futuro onde esses sons passem a moldar o mainstream de forma autêntica. A amplificação de ritmos periféricos cria novas pontes entre continentes e culturas. Acredito que é importante valorizar tanto as vivências que dão origem à essas sonoridades, quanto os lugares até onde essas sonoridades podem chegar.” 

CEROL 25 é um lembrete de que a música de pista mais pulsante do nosso tempo nasce onde há urgência, invenção e sobrevivência. Ao reunir artistas que vivem, sentem e transformam suas realidades em som, a TroubleMaker Records cria uma colagem crua e vibrante, onde cada faixa carrega a tensão do cerol na linha: entre o jogo e o risco, entre o prazer e o corte. É nesse atrito que a música se torna arma, manifesto e festa – tudo ao mesmo tempo. CEROL 25 não suaviza nada. Ele devolve à música de club seu lugar de origem: nas mãos de quem nunca parou de dançar, mesmo em meio ao caos.


“Com esse espírito e voracidade lançamos CEROL 25” exprimem Gadutra e Vitor, curadoras da compilação.