texto de Hugo Pinto

Há músicos que seguimos há décadas.

Acompanhamos a sua trajetória desde os primeiros álbuns, assistimos à evolução do seu som, rimos com o aumento da sua popularidade e lamentamos os inevitáveis fracassos.

Fazem parte de nós. Quando “os outros” os descobrem há um misto de orgulho e ressentimento. “Sim, eu fico feliz que tenhas descoberto agora o músico de que te ando a falar há anos”. Tudo isto faz parte e com a idade, torna-se até prazeroso.

Apparat

No próximo sábado, na PARALLEL SOCIETY em Marvila, vai haver um dia de concertos que tem no alinhamento vários artistas que são desse modo para mim.

Nomeadamente Apparat, Clark e Kode9.

São três produtores de eletrónica que marcaram a música do século XXI. Têm uma obra vasta em vários géneros de música. Fizeram bandas sonoras e música clássica, colaboraram com quem interessa, saíram da zona de conforto, exploraram e deram-se bem.

Criaram editoras de referência e escreveram teses em livros que se tornaram clássicos.

Como se tal não bastasse há ainda Calibre e Gilles Petterson. Mais o novo jazz inglês de Moses Sumney e as guitarras das Los Bichos.

Calibre

Perguntámos a Louisa Haining, curadora do PARALLEL SOCIETY, como conseguiram um elenco destes:

“Temos a sorte de trabalhar com uma equipa que tem a confiança dos artistas e agentes e que trabalha arduamente há anos, mas foi preciso tempo e paciência. Todos os artistas do alinhamento partilham o espírito de resistência e a vontade de ultrapassar limites, elevar os outros e construir comunidades. O primeiro a juntar-se a nós foi Kode9. Sempre quisemos que a programação enfatizasse música e ideias underground e ficámos muito felizes quando ele aceitou.

Calibre juntou-se logo depois, outro artista que respeitamos profundamente e, mais importante, que queremos ver e ouvir em Lisboa. Assim que tivemos a confiança e o apoio iniciais destes grandes artistas, mais se juntaram.

E não esquecer a importância que damos aos projectos portugueses que abrem o dia”.

Los Bichos

Sobre o que diferencia este festival de todos os outros a resposta de Louisa Haining é clara:

“Pessoas e comunidade. Criar uma agenda para a (não) conferência combinada com um festival de música. Embora tenhamos alguns artistas extremamente influentes agendados para o segundo dia (dia do festival), a Parallel Society quer fazer mais do que contratar cabeças de cartaz, vender bilhetes e organizar uma festa num armazém: Há um esforço para construir um movimento em torno da ideia de organização paralela. Ao longo dos dois dias, temos projetos como a Radio Quântica ou o Instituto New Economy, ambos muito diferentes, ambos a tentar efetuar mudanças e amplificar vozes de Portugal, juntamente com projetos como o Tor, o Logos ou o Internet Archive, que valorizam verdadeiramente a importância da cultura, da liberdade e do avanço da sociedade civil.

Kode9

E porquê Lisboa?

“Lisboa é uma cidade diversificada e de mente aberta, tornando-a o cenário ideal para conversas sobre arquiteturas sociais alternativas. No entanto, tal como outras cidades, enfrenta os seus desafios, crise habitacional, aumento do custo de vida, circunstâncias económicas cada vez mais difíceis para a Geração Z e os millennials que herdaram ideias, políticas e estruturas que não funcionam. Queríamos escolher uma cidade onde pudéssemos fazer algo que beneficiasse tanto as pessoas das comunidades criativas, culturais e tecnológicas locais, como aqueles que viajam para cá para aprender mais.

Para nós, era um local natural para a Parallel Society.”

O Parallel Society decorre nos dias 6 e 7 de março em Marvila.