Na Paulo Parra Collection

Texto por Carla Carbone

Quando falamos na escola da Bauhaus, não a referimos como um lugar de instrução fechado, nem em uma única linha de pensamento. A escola, fundada por Walter Gropius, em 1919, era heterogénea, diversificada, e com forte acento no experimentalismo.

Primeiro, não é fácil descrever, ou construir uma história sobre ela sem relatar os desacordos, ou as dissonâncias que se evidenciaram. Sabe-se que era uma instituição dada a impermanências, e o divisionismo tanto se repercutia no seu interior, como se espelhava no exterior, no confronto com os valores vigentes da sociedade da época.

O que vemos hoje, dos seus objectos, das peças que nos fascinam tão largamente, e as ressonâncias que ainda emitem, decorrido um século, é a forte unidade que irradiam, o sentido de completude, e uma ideia de “obra de arte unificada”.

A solidez, e fascínio, que os objectos úteis, desenhados pela Bauhaus, ainda transmitem, provêm, não só, de um modo de desenhar, ou pensar o desenho, mas de um todo que se repercute – ou pelo menos assim se ambicionou – em toda a sociedade, e vida do indivíduo, como ser ativo, e dialogante.

Nos movimentos reformistas da educação da Alemanha do final do século XIX, e no princípio dacriança – artista, viram-se espelhados os ideais de uma sociedade evoluída artisticamente, como “instrumento de renovação do futuro social e económico da Alemanha”1, assim como o propósito de formar crianças e jovens no seio de uma educação lúdica, experimental, sensorial, e livre esteticamente. A escola da Bauhaus colheu os frutos dessas reformas, e não raras vezes é associada, gramaticalmente, e no domínio pedagógico, aos princípios preconizados pelos educadores Friedrich Froebel, e Heinrich Pestalozzi2.

Os artistas e arquitectos mais associados a esta escola renovadora de Froebel3 foram: Frank Lloyd Wright, Kandinsky e Le Corbusier4.

Nos jardins-de-infância eram fornecidas, às crianças, folhas com grelhas definidas por pontos. Estes suportes serviam para as crianças desenharem, e reproduzirem, modelos apresentados pelos professores, o que permitia a associação entre o desenho da escrita e o desenho artístico5.

Os blocos6 de Froebel (1835 e 1850), e que consistiam em cubos divididos em oito partes7, outros em partes ainda mais pequenas, possibilitavam também combinações e jogos de formas, cada vez mais elaborados e complexos8. Um desafio para a criatividade, e desenvolvimento cognitivo das crianças. Podia-se, por isso, imaginar Wright a cruzar sólidos, e sobrepor formas, umas mais finas que as outras, nas suas obras arquitectónicas, ou Le Corbusier, na sua celebração à cor, ou ainda Kandinsky, a dar especial atenção aos elementos do desenho.

Em todos, é clara, no entanto, na sua prática, a valorização e unificação das várias artes, sem hierarquias, como também o defendia Gropius, no seu manifesto inaugural: Uma confraria de artesãos, desprovida dessa arrogância que divide as classes e que pretende erigir uma barreira de orgulho infranqueável entre artesãos e artistas9.

Os cursos da Bauhaus, numa primeira fase, eram gerais, e chamados de cursos básicos da Bauhaus. Permitiam, aos alunos, o contacto com os diferentes materiais, com os vários meios, num princípio subjacente, e filosófico, de análise das formas, da cor, e no sentido de uma ciência da arte10. Ainda hoje as formas dos objectos de design da Bauhaus impressionam, pela sua força, e perfeição. Os designers compreendiam a função, mas dominavam, de modo magistral, os desafios formais e estéticos daí resultantes, comoo fariam agilmente escultores ou pintores. Procuravam, também a harmonia entre forma e função.

Entre 1924 e 1928, e numa conjuntura política e social que se anunciava crítica, a escola precipitava-se para um maior materialismo e objectividade, estabelecendo, na última fase, entre 1930 e 1933, umaorientação mais racional e técnica do ensino11.

A seriedade dos objectos úteis, desenhados pelos mestres da Bauhaus, e seus alunos, assim como o equilíbrio atestado pelas suas formas e a sua funcionalidade, pôde ser visto na bela exposição que esteve patente na Reitoria da Universidade de Lisboa. A exposição reflecte o diálogo dos designers com a indústria, e ainda os modelos pedagógicos das escolas de design, como a Bauhaus e a escola ULM.

Puderam ver-se representados, por isso, na exposição Paulo Parra Collection Bauhaus + ULM, Teaching Models and Industrial Design, designers emblemáticos como Marianne Brandt, e os objectos Letter scale, 1930, e Trioplan Camera (1959); Wilhem Wagenfeld, e o impressionante Combi Radio/Record-Player (1955), da Braun, o emblemático gira discos PC 3 SV Record Player (1956), da Braun, desenhado em parceria com Dieter Rams, a ABC Typewriter (1955), a Kitchen Wall Clock (1057) de Max Bill, a SK4 Radio-Phonograph (1956), de Hans Gugelot, a T1 Radio (1957), de Dieter Rams, entre outros. A exposição compreende uma selecção de objectos, provenientes da colecção particular de design de Paulo Parra.

1Lupton, Ellen; Miller, J. A. (2019) O abc da Bauhaus, a Bauhaus e a teoria do design. Gustavo Gili. Pág. 25

2Ibidem Pág. 11

3Ibidem, pag. 24

4Ibidem, pág. 24

5Ibidem

6Conhecidos como os Dons e Ocupações de Froebel.

7Ibidem

8Ibidem

9Tradução livre de um excerto do Manifesto inaugural de Walter Gropius, citado por Girard X (2003) Bauhaus. H KLICZKOWSKI-Onlybook, SI.

10Segundo Lupton, Ellen; Miller, J. A.

11Segundo Xavier Girard