{"id":10323,"date":"2025-09-04T17:54:53","date_gmt":"2025-09-04T17:54:53","guid":{"rendered":"https:\/\/parqmag.com\/wp\/?p=10323"},"modified":"2025-09-04T17:54:55","modified_gmt":"2025-09-04T17:54:55","slug":"os-discos-do-irmao-do-nuno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/parqmag.com\/wp\/os-discos-do-irmao-do-nuno\/","title":{"rendered":"Os discos do irm\u00e3o do Nuno"},"content":{"rendered":"\n<p>Os discos do irm\u00e3o do Nuno<\/p>\n\n\n\n<p>Alguma coisa haver\u00e1 que nos torne mel\u00f3manos.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p><strong>Texto por Hugo Pinto *<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Algu\u00e9m que ouve m\u00fasica compulsivamente mas incapaz de ligar o r\u00e1dio sem se preocupar com a esta\u00e7\u00e3o, que ama e detesta bandas com a mesma intensidade, que n\u00e3o resiste a uma discuss\u00e3o apaixonada sobre um qualquer \u00e1lbum ou g\u00e9nero de m\u00fasica. Ser esquisitinho com qualquer coisa torna-nos melhores.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"742\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/6359df51f2bf7b4c3a77e759-pink-floyd-the-dark-side-of-the-moon-742x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10324\" srcset=\"https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/6359df51f2bf7b4c3a77e759-pink-floyd-the-dark-side-of-the-moon-742x1024.jpg 742w, https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/6359df51f2bf7b4c3a77e759-pink-floyd-the-dark-side-of-the-moon-217x300.jpg 217w, https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/6359df51f2bf7b4c3a77e759-pink-floyd-the-dark-side-of-the-moon-768x1060.jpg 768w, https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/6359df51f2bf7b4c3a77e759-pink-floyd-the-dark-side-of-the-moon-480x662.jpg 480w, https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/6359df51f2bf7b4c3a77e759-pink-floyd-the-dark-side-of-the-moon.jpg 1087w\" sizes=\"auto, (max-width: 742px) 100vw, 742px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>H\u00e1 um prazer metaf\u00edsico no momento que apreciamos. Algo profundo. S\u00f3 nosso. J\u00e1 para os outros acrescenta interesse. H\u00e1 sempre assunto com um amante de. Alguma coisa haver\u00e1 que nos fa\u00e7a preferir a m\u00fasica em vez de qualquer outro h\u00e1bito. Ficar boquiaberto com um tema na primeira vez que o ouvimos. Fascinado. Como um apreciador saboreia aquele tinto pela primeira vez. Ou um outro, quando se abriu um capot e viu o motor de um Datsun 1200.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 quem tenha uma fam\u00edlia que induziu um qualquer saber que levou mais tarde a uma mania nossa. Um tio que ensina a desmontar um r\u00e1dio ou uma irm\u00e3 que nos leva a um outro cinema, chamando desde cedo a aten\u00e7\u00e3o para determinados detalhes, suscitando curiosidade. Esta vis\u00e3o raramente se coaduna com o pessoal l\u00e1 da rua.<\/p>\n\n\n\n<p>No bairro, cada um fazia pelos seus interesses porque os pais estavam demasiado ocupados a trabalhar. Al\u00e9m disso, aquela gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o era pr\u00f3diga a partilhar sentimentos. A honrosa excep\u00e7\u00e3o era o futebol, a\u00ed sim a influ\u00eancia de pais e familiares pr\u00f3ximos era avassaladora. Na m\u00fasica, foi um feliz acaso que me permitiu fazer o meu caminho, idiossincraticamente.<\/p>\n\n\n\n<p>O Nuno calhou na minha turma do primeiro ano, agora quinto ano.<\/p>\n\n\n\n<p>Mor\u00e1vamos perto e o meu av\u00f4 levava-nos de carro para a preparat\u00f3ria a caminho do trabalho. Quando dava, ainda nos trazia a almo\u00e7ar a casa. O Nuno tem um irm\u00e3o uns 10 anos mais velho que n\u00f3s. Ele faz parte daquela gera\u00e7\u00e3o que, na adolesc\u00eancia, viu os Clash e os Genesis em Portugal. Estou a falar de finais dos 70, in\u00edcio dos 80. Em meados dos anos 80, o irm\u00e3o do Nuno era, para mim, uma personagem meio m\u00edtica: Trabalhava em computadores, algo estranh\u00edssimo para a \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, embora fosse v\u00e1rias vezes a casa do Nuno jogar Subbuteo ou Pong, raramente o v\u00eda.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembro-me vagamente dele ter casado cedo com uma hippie, ou pelo menos era assim que eu a via, e de ter ido viver para a Nazar\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o Nuno ficou com os LPs dele em casa e a\u00ed \u00e9 que estava o ouro. Imaginem, t\u00eam 14 anos e n\u00e3o havia internet. No quarto de um adolescente ainda n\u00e3o h\u00e1 um computador mas sempre houve uma secret\u00e1ria. Entalado algures entre a cama, o guarda-fato e a uma estante de livros e brinquedos, est\u00e1 um m\u00f3vel vertical, de contraplacado escuro, com uma porta de vidro que invariavelmente se partia. Quase sempre tinha rodas, embora eu nunca tivesse visto nenhum a mexer. Era a aparelhagem. No topo estava um gira-discos. Depois um amplificador, um r\u00e1dio e um leitor de cassetes. O gira-discos tinha uma tampa de pl\u00e1stico transparente que raramente se fechava enquanto se metia um vinil a rodar.<\/p>\n\n\n\n<p>O amplificador permitia escolher entre \u201cPhono, Tape, Turner, Aux..\u201d. S\u00e3o palavras gravadas a chumbo na mem\u00f3ria. Al\u00e9m disso, o amplificador tinha o gordo bot\u00e3o do volume, aquele que mais se rodava. Seja porque nem todos os discos t\u00eam o mesmo volume, seja porque o volume depende da hora e da companhia, seja porque quando os pais entravam no quarto, o volume descia automaticamente. O r\u00e1dio permitia guardar entre 5 a 10 esta\u00e7\u00f5es, no m\u00e1ximo. No meu caso era um \u201c\u00e9cran\u201d a led, verde. O leitor de cassetes dava para gravar a partir do r\u00e1dio e do gira-discos, desde que os n\u00edveis jamais chegassem ao segundo vermelho (I know, wtf?!).<\/p>\n\n\n\n<p>Na vers\u00e3o quitada, continha dois leitores de cassete e permitia fazer c\u00f3pias de cassete para cassete. \u00c0s vezes havia um equalizador separado, que embora fosse de utilidade duvidosa, dava sempre um ar sofisticado e estiloso \u00e0 coisa.No fim, junto ao ch\u00e3o, havia um espa\u00e7o para guardar os vinis.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabiam uns 60 vinis ali, mais ou menos. Havia sempre \u00e1lbuns duplos. As aparelhagens eram todas Sony e Pioneer, Phillips e Sanyo. E eram um mundo de possibilidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de ter descoberto os programas de r\u00e1dio e o Blitz, antes de come\u00e7ar no meu pr\u00f3prio caminho com a new wave, antes dos amigos nos infectarem com os seus gostos, antes de tudo isso, houve as dezenas de cassetes que gravei dos LPs do irm\u00e3o do Nuno. Aqueles discos permitiram-me caminhar. Suscitaram-me a tal curiosidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira m\u00fasica interessante que ouvi veio daqueles \u00e1lbuns. Descobri o Reggae com o Marley, mais os Doors e os Pink Floyd, os Police e os Dexys Midnight Runners, Led Zeppelin e Paco de Lucia. Havia rock sinf\u00f3nico, prog e fus\u00e3o. E havia o punk. (The Clash are the only band that matters).Tudo misturado, tudo ouvido muitas vezes do in\u00edcio ao fim, porque n\u00e3o havia mais nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Gravava-se um disco no lado A de uma cassete e outro diferente no lado B.A capa eram os alinhamentos dos \u00e1lbuns. Muitas vezes, na frente de cada tema, uma s\u00e9rie de 3 d\u00edgitos, indexados \u201c\u00e0-la-pata\u201d, indicava em rota\u00e7\u00e3o, entre 000 e 999, onde come\u00e7ava aquela m\u00fasica. Este processo, que tem tanto de arcaico como de trabalhoso, era quase sempre in\u00fatil, e a import\u00e2ncia que lhe d\u00e1vamos era romanticamente pueril.Na lombada, o nome da banda e dos \u00e1lbuns era essencial. Quase tudo a caneta bic.<\/p>\n\n\n\n<p>E gastava-se muito dinheiro em cassetes. BASF eram baratas, TDK mais caras. Cr\u00f3mio era um luxo pouco adequado a quem vinha do bairro. As cassetes \u00edam para todo o lado connosco. Come\u00e7avam a rodar na aparelhagem do quarto, depois seguiam-nos para a escola no walkman. Quando havia viagens, tocavam no carro, quando se chegava \u00e0 praia, passavam para o tijolo.Rodavam muito e ainda se trocavam, durante uns tempos, com os amigos. Num grupo restrito, n\u00e3o havia grande necessidade de todos termos os mesmos discos. Cada um gravava o que mais gostava, consoante as suas possibilidades em cassetes.<\/p>\n\n\n\n<p>Os discos do irm\u00e3o do Nuno acompanharam o secund\u00e1rio. Mesmo quando j\u00e1 fazia as minhas escolhas, mesmo quando o CD apareceu, aqueles primeiros \u00e1lbuns ouviam-se sempre. \u00c0 dist\u00e2ncia, pergunto-me qu\u00e3o diferente teria sido este caminho se l\u00e1 tivesse havido<strong> Marvin Gaye ou Aretha Franklin, James Brown ou Sly and the Family Stone.<\/strong> Mas mas n\u00e3o havia, ou eu n\u00e3o dei por ela, e a vida continuou.Tenho outro amigo do mesmo grupo, que pouco mais tarde, num dos discos do irm\u00e3o do Nuno, descobriu o Jazz e por l\u00e1 ficou at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>O irm\u00e3o do Nuno foi a primeira pessoa importante na minha educa\u00e7\u00e3o musical. N\u00e3o porque o tenha conhecido quando era jovem mas porque, quando casou, deixou os seus LPs em casa do Nuno.<\/p>\n\n\n\n<p>O irm\u00e3o do Nuno chama-se Vitor e entretanto tornou-se amigo.<\/p>\n\n\n\n<p>(Excerto de pr\u00e9-edi\u00e7\u00e3o de \u201cAudiobiografia\u201d, H. Pinto, 2028).<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Texto publicado em <a href=\"https:\/\/parqmag.com\/wp\/pdf\/PARQ_82.pdf\">PARQ_82.pdf<\/a><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p> [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":10324,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_coblocks_attr":"","_coblocks_dimensions":"","_coblocks_responsive_height":"","_coblocks_accordion_ie_support":"","footnotes":""},"categories":[2],"tags":[4328,4329,3086],"class_list":["post-10323","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-musica","tag-clash","tag-genesis","tag-hugo-pinto"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10323","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10323"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10323\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10325,"href":"https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10323\/revisions\/10325"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10324"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10323"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10323"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10323"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}