{"id":10052,"date":"2025-06-17T13:14:51","date_gmt":"2025-06-17T13:14:51","guid":{"rendered":"https:\/\/parqmag.com\/wp\/?p=10052"},"modified":"2025-06-17T13:57:04","modified_gmt":"2025-06-17T13:57:04","slug":"mergulho-como-reparacao-do-olhar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/parqmag.com\/wp\/mergulho-como-reparacao-do-olhar\/","title":{"rendered":"Mergulho, como repara\u00e7\u00e3o do Olhar"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>O Lago dos Cisnes de<\/strong> <strong>Daniel Gorj\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Texto por<a href=\"https:\/\/parqmag.com\/wp\/?page_id=10056\" data-type=\"page\" data-id=\"10056\"> Manuela Marques<\/a><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>\u00abO Lago dos Cisnes\u00bb, de Tchaikovsky (1876), ganhou, recentemente, outra dimens\u00e3o e leitura que, intencionalmente ou por acidente, nos revela uma \u00edntima rela\u00e7\u00e3o com o mito de <em>Narciso<\/em>. Na vers\u00e3o de <strong>Daniel Gorj\u00e3o<\/strong>, com m\u00fasica de <strong>M\u00e1ximo Francisco<\/strong> e libreto de <strong>Andr\u00e9 Tecedeiro<\/strong>, o ic\u00f3nico bailado reescreve-se numa perspetiva e est\u00e9tica contempor\u00e2nea, carregando quest\u00f5es vigentes, nomeadamente, a da identidade de um Corpo \u2013 Ser Humano \u2013, diverso e complexo. Um convite a re-pensar sobre a autenticidade desse Corpo, f\u00edsico e psicol\u00f3gico, em metamorfose. O espet\u00e1culo, cuja premissa \u00e9 a ruptura do c\u00e2none, come\u00e7a, logo, por desfazer um <em>reflexo<\/em> \u2013 apar\u00eancia \u2013, negando ao p\u00fablico o deleite com a imagem perfeita do ballet cl\u00e1ssico.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"666\" src=\"https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/JCC-O-Lago-dos-Cisnes-77.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10053\" srcset=\"https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/JCC-O-Lago-dos-Cisnes-77.jpg 1000w, https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/JCC-O-Lago-dos-Cisnes-77-300x200.jpg 300w, https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/JCC-O-Lago-dos-Cisnes-77-768x511.jpg 768w, https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/JCC-O-Lago-dos-Cisnes-77-480x320.jpg 480w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Teatro &#8220;O Lago dos Cisnes&#8221;  de Daniel Gorj\u00e3o, Centro Cultural de Bel\u00e9m, Foto: Jos\u00e9 Carlos Carvalho<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>O dispositivo c\u00e9nico, espelhado, refor\u00e7a a liga\u00e7\u00e3o entre \u00abO Lago dos Cisnes\u00bbe o mito de <em>Narciso<\/em>, que se evidencia pelo uso simb\u00f3lico da imagem, do desejo projetado e da tr\u00e1gica ilus\u00e3o. Ambas as tramas mostram o perigo de amar <em>imagens<\/em> \u2013 sejam elas reflexos ou disfarces, que nesta remontagem s\u00e3o as <em>conven\u00e7\u00f5es<\/em> \u2013, e como isso pode levar \u00e0 perda, \u00e0 dor e at\u00e9 \u00e0 morte, no caso, a do <em>self<\/em>. A beleza, o amor e a identidade s\u00e3o <em>espelhos<\/em> nos quais as personagens se perdem.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta reinterpreta\u00e7\u00e3o, as personagens de \u00abO Lago dos Cisnes\u00bb adquirem voz, usam a Palavra como movimento que esclarece e situa o seu papel na narrativa, uma vez que s\u00e3o flu\u00eddas. Contudo, servem arqu\u00e9tipos presentes na natureza humana, exp\u00f5em as suas dualidades, como as que figuram no ser <em>Cisne,<\/em> s\u00edmbolo de eleg\u00e2ncia e transforma\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 um animal que carrega contrastes profundos, entre leveza e peso, gra\u00e7a e viol\u00eancia ou pureza e instinto.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"666\" src=\"https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/JCC-O-Lago-dos-Cisnes-43-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10054\" srcset=\"https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/JCC-O-Lago-dos-Cisnes-43-1.jpg 1000w, https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/JCC-O-Lago-dos-Cisnes-43-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/JCC-O-Lago-dos-Cisnes-43-1-768x511.jpg 768w, https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/JCC-O-Lago-dos-Cisnes-43-1-480x320.jpg 480w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Teatro &#8220;O Lago dos Cisnes&#8221;  de Daniel Gorj\u00e3o, Centro Cultural de Bel\u00e9m. Foto: Jos\u00e9 Carlos Carvalho<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>\u00c0 beira do lago \u2013 <em>espelho<\/em> \u2013 que \u00e9 o cen\u00e1rio da mudan\u00e7a e da transi\u00e7\u00e3o para a verdade escondida, todas as personagens lidam com a sua falha narc\u00edsica e como possuir o seu objeto de desejo \u2013 a aliena\u00e7\u00e3o do sujeito por oposi\u00e7\u00e3o ao <em>eu aut\u00eantico.<\/em> Um mergulho nesse lago, aparente maldi\u00e7\u00e3o por parte de <em>Rothbart<\/em>, quebra o reflexo, a superficialidade, a imagem-ilus\u00e3o que se tem de si-mesmo, ao contr\u00e1rio do sucedido com Narciso, que sucumbiu \u00e0 sua vaidade. Esse <em>mergulho<\/em> age como repara\u00e7\u00e3o do olhar, rompe o espelho narc\u00edsico para possibilitar a reconstru\u00e7\u00e3o do <em>self<\/em>, de uma identidade aut\u00eantica \u2013 como comprova a personagem <em>Siegfried <\/em>ap\u00f3s ser coagida a faz\u00ea-lo. Mais tarde, <em>Siegfried<\/em> confessa que ao emergir teve uma nova oportunidade de Ser: mais \u00edntegra, mais verdadeira e menos alienada da sua ess\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Este mergulho, rito de passagem do <em>eu ilus\u00f3rio<\/em> para o <em>eu aut\u00eantico<\/em>, opera como met\u00e1fora para a repara\u00e7\u00e3o do olhar, ou seja, do modo como nos vemos para o que realmente somos. No desenrolar do enredo, desta (re)cria\u00e7\u00e3o, o fado de <em>mergulhar<\/em> repete-se com outras personagens. Primeiro com <em>Odette<\/em> \u2013 s\u00edmbolo de ingenuidade e de uma identidade fragmentada \u2013, e posteriormente com <em>Odile<\/em>. Esta personagem mergulha no lago a fim de reencontrar <em>Odette<\/em>, mas acaba condenada a ser o reflexo do seu objeto de desejo \u2013 como representa\u00e7\u00e3o do ego narc\u00edsico, ou melhor, da imagem ilus\u00f3ria e sedutora que o ego humano projeta e deseja.<\/p>\n\n\n\n<p>Importa re-olhar \u2013 <em>reparar<\/em> \u2013 a entidade <em>Rothbart<\/em>, que reiteradamente surge vilanizada, desta feita como sendo signo de parentalidade t\u00f3xica \u2013 uma m\u00e3e controladora e moralista mas em conflito com a sua consci\u00eancia, <em>alter ego<\/em>. <em>Rothbart <\/em>\u00e9 encarada como sendo<em> vil\u00e3<\/em> da hist\u00f3ria. Todavia, det\u00e9m responsabilidade nesse <em>mergulho<\/em>, como repara\u00e7\u00e3o do olhar, facto que adensa a an\u00e1lise desta figura antagonista: podendo ser vista menos como <em>inimigo externo<\/em> e mais como agente necess\u00e1rio da transforma\u00e7\u00e3o. <em>Rothbart<\/em> encarna o que o ego teme mas precisa de enfrentar, \u00e9 <em>agente do confronto<\/em> com o que a consci\u00eancia recusa. O seu intento e sua a\u00e7\u00e3o s\u00e3o um paradoxo, ao empurrar as personagens para submergir no lago livra-se delas como obst\u00e1culos mas permite que estas alcancem a sua <em>liberdade<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"666\" src=\"https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/JCC-O-Lago-dos-Cisnes-38.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10055\" srcset=\"https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/JCC-O-Lago-dos-Cisnes-38.jpg 1000w, https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/JCC-O-Lago-dos-Cisnes-38-300x200.jpg 300w, https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/JCC-O-Lago-dos-Cisnes-38-768x511.jpg 768w, https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/JCC-O-Lago-dos-Cisnes-38-480x320.jpg 480w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Teatro &#8220;O Lago dos Cisnes&#8221; de Daniel Gorj\u00e3o, Centro Cultural de Bel\u00e9m. Foto: Jos\u00e9 Carlos Carvalho<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>Sem<em> Rothbart<\/em> n\u00e3o haveria mergulho. H\u00e1 uma carga psicol\u00f3gica e filos\u00f3fica no ato de <em>mergulhar<\/em> porque este gesto significa atravessar o reflexo, quebrar a ilus\u00e3o \u2013 partir o espelho \u2013 e entrar num espa\u00e7o onde a verdade do <em>self<\/em> pode ser reencontrada. <em>Rothbart <\/em>\u00e9, ent\u00e3o, uma figura-limite entre o caos e a revela\u00e7\u00e3o. Qual o percurso e o desfecho da hist\u00f3ria sem esta <em>persona<\/em>?<\/p>\n\n\n\n<p>Submersa, a pe\u00e7a termina em celebra\u00e7\u00e3o, o bailado acontece, finalmente, e transborda para a plateia: as personagens dan\u00e7am numa <em>rave<\/em>. Por vezes, a intui\u00e7\u00e3o chega antes do discurso. Neste <em>Lago dos Cisnes<\/em>, Daniel Gorj\u00e3o desarruma a obra original, rejeita o <em>virtuosismo <\/em>e transporta-a para os dias de hoje, fazendo vislumbrar um drama simb\u00f3lico da alma \u2013 exist\u00eancia \u2013 humana, de condi\u00e7\u00e3o irresol\u00favel. Desponta, ainda, o seguinte enigma: Seria Narciso, afinal, um <em>patinho feio<\/em>?<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p><strong>\u00abO LAGO DOS CISNES\u00bb, de 28 a 30 Maio, no CCB (Lisboa) \u00b7 Dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica DANIEL GORJ\u00c3O \u00b7 Texto ANDR\u00c9 TECEDEIRO \u00b7 Interpreta\u00e7\u00e3o BATATA, DUARTE MELO, IN\u00caS C\u00d3IAS, RITA CAROLINA SILVA e Z\u00c9 COUTEIRO \u00b7 Apoio \u00e0 cria\u00e7\u00e3o MARIA JORGE \u00b7 Assist\u00eancia de encena\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o JO\u00c3O CANDEIAS \u00b7 Desenho de luz SARA GARRINHAS \u00b7 M\u00fasica original M\u00c1XIMO FRANCISCO \u00b7 Sonoplastia e desenho de som MIGUEL LUCAS MENDES \u00b7 Apoio ao movimento MARIA AZEVEDO CARVALHO \u00b7 Dire\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica SARA GARRINHAS e S\u00c9RGIO JOAQUIM \u00b7 Execu\u00e7\u00e3o de figurinos JACQUELINE ROXO \u00b7 Execu\u00e7\u00e3o de cenografia <em>FP Solutions <\/em>\u00b7 Assessoria de imprensa<em> ShowBuzz<\/em> \u00b7 Imagem promocional DUARTE AMARAL NETTO \u00b7 Registo fotogr\u00e1fico JO\u00c3O COSTA \u00b7 Produ\u00e7\u00e3o TEATRO DO V\u00c3O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p> [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":10055,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_coblocks_attr":"","_coblocks_dimensions":"","_coblocks_responsive_height":"","_coblocks_accordion_ie_support":"","footnotes":""},"categories":[2007],"tags":[4238,4236,4239,2018,4237,22,147,4240,935],"class_list":["post-10052","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-teatro","tag-andre-tecedeiro","tag-daniel-gorjao","tag-lago-dos-cisnes","tag-manuela-marques","tag-maximo-francisco","tag-parq","tag-parqmag","tag-tchaikovsky","tag-teatro"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10052","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10052"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10052\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10058,"href":"https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10052\/revisions\/10058"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10055"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10052"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10052"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/parqmag.com\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10052"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}