Num ano marcado por uma pandemia causada por um vírus, não podia ser a melhor altura para lançar uma mini-série que fale de um outro vírus, o da Sida, tendo como foco o impacto que teve em Inglaterra em certas comunidades nos anos 80 e 90. Já disponível na HBO Portugal, a série, It’s a Sin passou inicialmente na Channel 4 e é uma proposta Russell T. Davies , o mesmo roteirista do sucesso televisivo, Queer as Folk. Na série que acaba de estrear, o autor quis relembrar a sua própria juventude, quando chega a Londres, no início dos anos 80, uma cidade fervilhava, em parte devido à explosão da cultura gay que crescia livremente depois de ter sido descriminalizava no seu país a homossexualidade em 1967. Por essa razão colocou as suas personagens a chegar a Londres, o sítio que todos acreditam ser o certo para viver em liberdade a felicidade de amar quem bem quisessem. No entanto, o evento da Sida viria a interromper drasticamente a vida de toda uma geração que apenas começava a desenhar os seus sonhos. No desenrolar dos cinco episódios os preconceitos e as zonas mais escuras de toda uma sociedade são-nos servidos de forma hilariante e dramática. Umas vezes temos muita vontade de rir e outras de chorar, um carrossel de emoções que não deixa ninguém indiferente.

It’s a Sin é pois um filme marcado pela alegria de viver de uma geração, embalada por todos os grandes sucessos da época da Pop britânica inglesa. Contudo, a felicidade inicial dos protagonistas que decidem viver em comunidade , no Pink Palace, um decrepito apartamento vitoriano que alugavam, é ameaçada aos primeiros sinais de casos do HIV. Inicialmente vista por ser uma doença dos outros, a dos americanos, depressa vêm sucumbir os amigos dos amigo, depois os seus próprios amigos e por fim eles próprios. Os seus preconceitos e o dos outros, são servidos gota a gota até ao caos final, onde sobram só destroços, vidas e sonhos interrompidos.

O enredo vive de um conjunto de personagens principais que se encontram casualmente em Londres formando uma espécie de família alternativa. No Pink Palace encontramos Ritchie (Olly Alexander), que chega de uma recatada zona na Ilha de Wight e que em Londres procura viver apressadamente a sua verdade, ainda que contida, forçada pela sua educação e pelo reprimir de emoções que era quase obrigatório para um jovem homossexual da sua época. Junta-se Roscoe (Omari Douglas), que se liberta da sua família nigeriana conservadora, e Colin (Callum Scott Howells), um envergonhado jovem de Gales, que mal ousa existir. Ao lado dos rapazes, temos Jill (Lydia West), a melhor amiga de Ritchie e a alma da casa. No desenrolar do drama, Jill joga um papel importante porque é a figura solidaria que dá coesão ao grupo familiar e à comunidade em que se envolve. Na série, é a voz que está sempre ao lado da ciência que vai captando as informações corretas, ao contrário dos amigos. Ela torna-se o grito que desperta para uma consciência social levando a questão a patamar nacional e por isso, a primeira a lutar contra os preconceitos e a juntar indivíduos em torno do combate contra a SIDA, manifestando-se publicamente para sensibilizar os políticos e a sociedade em geral para esse flagelo público.

It’s a Sin dá-nos a imagem de vírus que avançou muito rapidamente. É captado a partir dos ângulos de cada uma das suas personagens e respetivas famílias afetadas, expondo como o medo, à ignorância e à negação consumidas por um vergonha imposta por uma sociedade, foram o fermento para o seu desenvolvimento. Mostra ainda como os sistema de saúde, mesmo os mais sofisticados, não são imunes aos próprios preconceitos e em vez de proteger , expôs a fragilidade dos doentes de forma desumana. Muito rapidamente estes doentes passaram a ser tratados como criminosos da saúde pública e uma comunidade que lutava pelos seus direitos era remetida para um sentimento de culpa e vergonha

Mas para além da exposição das más política públicas, a série ainda invoca a crueldade das próprias famílias envolvida que cegas pelo seu desejo de uma normalidade, entram em estado de negação. Perante a notícia da infeção, tivemos famílias envergonhadas que tudo fizeram para desacreditar a realidade, procurando ocultar factos e criando verdades alternativas para os demais. Nesse aspeto, a série ganha o seu epílogo dramático quando Val, (Keeley Hawes), a mãe de Ritchie, captura o filho no seu quarto de infância, presa a uma negação a tudo o que o filho viveu e é, deixando-o morrer só, sem os amigos que o desejavam visitar.