Um drama musical

Texto por Lara Mather

O drama musical Emilia Pérez do realizador francês Jacques Audiard, vencedor do prémio do Júri no Festival de Cannes 2024 estreou recentemente em Portugal no Leffest – Lisboa Film Festival no passado dia 10 de Novembro.

Emilia Pérez é um filme audaz que junta musical e drama, tendo um narcotraficante no centro desta história, que decide mudar de identidade, tomando a decisão de transitar de género com a ajuda de uma advogada, Rita, interpretada por Zoe Saldaña.

A atriz Karla Sofia Gascon, também ela transgênero, interpreta ambas as personagens, Manitas, um criminoso violento, líder de um cartel de drogas, e Emilia, a sua nova identidade, feminina, maternal e solidária. Karla com 35 anos de carreira, e que vê agora o reconhecimento mundial com esta personagem, disse em entrevistas que a parte mais difícil de interpretar estas personagens não foi as duas identidades de género distintas, ou a transexualidade como poderiamos imaginar, mas sim conseguir acertar no sotaque mexicano sendo ela espanhola, natural de Madrid.

Karla Sofia Gascon, Zoe Saldaña, Selena Gomez e Adriana Paz venceram as quatro em conjunto o prémio de melhor atuação feminina no festival de Cannes este ano e não podia ser mais merecido. Cada uma destas mulheres transforma-se ao longo da narrativa e expõem através das canções tudo o que sentem de uma forma visceral. Emilia busca absolvição, Rita sonha com riqueza, Jesy, esposa de Manitas, interpretada por Selena Gomez, quer ser desejada e Epifania, interpretada por Adriana Paz, anseia por segurança.

Zoe Saldaña é cativante do início ao fim. A sua personagem serve de fio condutor entre a vida destas mulheres. É uma mulher inteligente, que se vê refém das suas origens humildes e da sua condição de vida, consequência da sociedade e do seu meio social.

O filme tem cenas musicais coreografadas por Damien Jalet, o foco não é a afinação das vozes mas sim a emoção e intensidade nas palavras cantadas por estas personagens. Dor e paixão são as palavras que melhor descrevem este filme.

Jacques Audiard baseou-se na obra “Écoute” de Boris Razon. Apaixonou-se pela história de renascimento de Emilia e inicialmente tinha como objetivo criar uma ópera. No entanto, como filme, o resultado é excelente, até porque a essência da ópera está na musicalidade.

O filme desenvolve-se maioritariamente em espanhol e foi filmado em estúdios, por questões de logística e estéticas que Jacques introduz. A história é passada no México, retratando a vida precária e perigosa dos seus habitantes, que vivem na cidade do México uma realidade dura e violenta dominada pelo narcotráfico abordando a questão dos milhares de desaparecidos. A corrupção também é um tópico permanente, desde o início, em que Rita está no mercado, uma excelente abertura para o filme, e que dita o tom.

A cena do “El Mal”, na cerimónia da ONG que Emilia funda para se redimir do passado criminal é também uma crítica social e uma demonstração da hipocrisia das pessoas presentes no evento, incluindo as personagens principais.

A banda sonora original foi composta e escrita por Clément Ducol e Camille Dalmais e conta no total com 16 temas vocais em espanhol. Paul Guilhaume é o diretor de fotografia, usa contrastes de luz e sombra e movimentos de câmara que acompanham cada passo de dança, estamos sempre em movimento, acelerados.

Não é um filme para toda a gente, é por vezes talvez demasiado arrojado ou “fora da caixa” para alguns mas é isso que o torna interessante .Existem rumores que “Emilia Pérez” poderá ser nomeado para os Óscares mas teremos que esperar para ver.